O sequestro

Paulo Rosenbaum

18 de julho de 2015 | 18h46

 

Vai andando!

Estamos no limite!

E, por que parou?

Estou pensando!

Vai por mim, não é uma hora boa para pensar Filho. Temos que ser práticos. Estamos com essa encrenca ai atrás e até agora ninguém respondeu!

O que sugere?

Checaram a mordaça? Amarraram bem?

Serviço profissional, Por que? Ouviu algum pio?

Tá surdo? Não percebeu que está gemendo?

Vai lá e da mais um aperto para ver se cala a boca.

Pronto!

Ele falou alguma coisa?

A baboseira toda. Que nunca pensou que pudesse acontecer e achou que tinha muito mais gente interessada na saúde dele. Quando expliquei, ficou chocado!

Você explicou o que?

Que ninguém queria pagar resgate, que o preço era muito alto. Que muita gente torcia para sangrar mais!

És mesmo um Imbecil! O cara entregue, todo mundo tirando lasquinha e você ainda dá mais uma torturadazinha?

Acorda Zoilo, foi ele quem pediu, fiquei com pena e contei a real. Você é testemunha, sempre fui contra alimentar  ilusões.

Como tem ingênuo neste mundo. Esperança pode ser o fim da picada, mas quem ainda cai nesse tipo de conto?

Ficou pancado? Começou a acreditar nas mentiras que contamos esses anos todos? Só pode estar de brincadeira, ou já esqueceu que somos sócios?

Éramos!

Ah agora tu vai pular fora agora? Recado: não cabe crise de consciência em bote salva-vidas.

(Risada nervosa )

Presta atenção: era 50/50, mas com gente gulosa não vai mais ter negócio!

Ficou louco? Está me ameaçando? Para já esse carro.

Quer bancar o manda chuva comigo?

Você esta acelerando esta geringonça!

Vai vendo!

Para essa droga.

Segura aí que estou detonando!

Um acidente grave, em cadeia,  envolvendo centenas interrompeu o sequestro, quase à beira do abismo. Os motoristas que se revezavam na direção sumiram de cena. Nunca mais se ouviu falar deles.  No porta malas encontraram a vitima ferida, com sinais de maus tratos, espoliada e desidratada. Libertada, saiu do buraco, cambaleante e desorientada. Deu uma singular declaração antes de voltar, pensativa, ao seu posto original:

Uma Republica só é valida quando consegue sobreviver aos seus condutores!

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-sequestro-2/