Ofício Literatura

Ofício Literatura

Paulo Rosenbaum

10 Outubro 2013 | 19h04

Marta Suplicy reage a críticas feitas por Ruffato durante Feira do Livro

 

 

Não sei se foi ou não aula de sociologia mas faz muito sentido que o discurso do escritor brasileiro em Frankfurt tenha sido uma crítica generalizada. O Estado contemporâneo merece ser refundado numa sustentabilidade com sobrenome. E ela não parece ser material, financeira ou industrial. Talvez não esteja nem mesmo na preservação do meio ambiente, segurança ou reservas estratégicas. No atual mal estar no mundo subsiste algo anterior. Uma enfermidade atávica, que os antigos gregos já compararam com a temível hidra de mil braços que habitava o lago de Peloponeso. Também chamada de muitos outros nomes, como mal estar na cultura, e, mais recentemente, de peste emocional. Estamos perdidos numa travessa, sem significados claros, cruzando de uma era para outra sem timão nem timoneiro. 

Viramos o milênio como uma legião entorpecida de bens, drogados pela abundancia. E quem não goza de fartura quer entrar no jogo. A fantasia é que lá está a completude. A classe média recém chegada ao paraíso, realiza que não é nada disso. Por sua vez, o poder acelerou a máquina para nos poluir com pão e distração. Um circo que se locupleta com a sociedade sem critérios. Os outros? Obscurecidos pela cegueira que emanamos. Trabalho, esforço e educação foram transformados. Nas sinonímias populares já aparecem como estupidez e perda de tempo. A busca de sucesso a qualquer preço é a prova da deslegitimação de todas as pedagogias. Que importa a biografia do sujeito desde que o resultado seja superávit primário?  Neste contexto, quem se espantaria com a desvalorização dos professores em meio à escolas cujas funções originais foram pervertidas? Quem ainda fica perplexo com o déficit de leitores? Ainda há alguma coisa a ser feita?  Digo, sem cair no moralismo salvacionista, medicalização da vida ou em formulações políticas messiânicas. Deslocar-se para estar no lugar do outro? Há quem seja capaz? A literatura acrescenta experiências, ressignifica sentidos. Não que seja sua função, trata-se de apenas um dos efeitos colaterais favoráveis.  Acontece por que a singularidade é caprichosa e costuma se manifestar na estranheza, no reconhecimento das diferenças. Apollinaire escreveu, “amo os homens não pelo que os une, mas pelo que os divide.” Luis Rufatto pode ter razão: a literatura transforma sujeitos e têm potencial para romper a imutabilidade de nossos tempos.