Os Intimidadores

Os Intimidadores

Paulo Rosenbaum

15 de março de 2019 | 17h03

O diário digital de um ex-justiceiro foi encontrado em um bunker isolado da Capital do Embustão. Considerado sigiloso por quase uma década, hoje foi descriptografado e pode-se ouvir a seguinte gravação:

“Hoje acordei com espírito bem mais leve, estado emocional que prezo muito. Com o poder acumulado pode-se dizer que sinto que, dominando minha impulsividade, a razão estará toda comigo. Esta ostentação (será mesmo ostentação?) me traz um poder, digamos, desmesurado. Ontem foi o dia da reversão. Depois de acuados, impedidos de usufruir nosso dia a dia, enfim saímos da defensiva.

Senhores, comemoremos, pois eis que hoje, nos libertamos da chamada opressão da transparência. Dessa “coisa” aberta como se um Estado nao pudesse ter e manter seus segredos. Já me convenci de que para assuntos profundos, a censura é nada menos que uma benção. Vejam esse alarde todo sobre imprensa livre. É o outro lado da mentira chamada de mídia digital de massas.

(Aplausos)

Hoje, oficialmente, aqui nesta confraternização intimista podemos gritar: saímos das cordas, escapamos da intimidação. Agora? Intimidaremos.

(aplausos prolongados e um grito triplo de voz aguda e feminina “urra, urra, urra”).

Hoje estamos a desafiar uma maioria despreparada. Afinal o que eles sabem? A guarda pretoriana que venha, nossas armas? Uma inconcebível moral, jamais alcançada pelo homem comum. Eles querem punir, nós queremos adequar as coisas, reduzi-las ao que elas devem ser. E nossa supremacia? Nao vale mais nada? Alguém precisa ajeitar essa República para que ela mude? Queremos isso?

(coro com baixa adesão: não)

Desejamos que ela continue a mesma, certo? Foi ou não isso que nos trouxe a prosperidade? É verdade que depois veio a pequena depressão econômica, mas quem já não passou por isso? Um ou outro errinho de administração. E por que estamos nesta batalha de contrafluxo? Exatamente por que estes pequenos homens e mulheres médias nao puderam, infelizmente, detectar a grandeza de nossas decisões. Eu cito de cabeça só o início e vocês já sabem o resto : “Nao vamos ganhar as eleições, vamos….”.

(copos trincando com liquido espumoso sendo derramado).

O certo é que temos que nos apiedar dessa gente que só critica. Querem uma confissão que anula toda hipocrisia? Entre eles e nós adivinhem para quem daremos prioridade? Nós temos os instrumentos perfeitos para caçar bruxas, e eles? Tacapes. Sao bárbaros achando que militância é teclar amenidades políticas nas redes sociais.

(Suspiros coniventes)

Ah, se eles apenas soubessem o tamanho de nossos acertos, de nosso visionário senso de justiça. Enquanto eles berram “liberdade para os lobos significa morte para as ovelhas”, nós lhes responderemos com a mais alta consciência do nosso dever cívico ilibado “ovelhas precisam de pastores experientes, por mais que pareçam nocivos, venais e corrompidos”.

(garfos e talheres nobres batucados sobre mesas de jacaranda)

Eles não podem entender que não se pode, sob pretexto algum, judicializar o crime. Antes, é preciso diálogo infinito para saber que nao há culpado até que se descongestione o transito em julgado.

(murmúrios indefinidos)

Isso é, não captam a elevada hermenêutica de que a impunidade nao é inconstitucional, o que fere a constituição é o desejo de querer fazer justiça a qualquer preço.

(e qual é o preço? uma voz nao identificada sussurra de dentro de um celular).

(silencio constrangedor)

(cadeiras sendo arrastadas, sala sendo esvaziada com guardas armados)

Seguranças revistam a sala em busca de grampos ilegais. Um clip suspeito de tamanho médio foi algemado e levado ao interrogatório.

(após um longo intervalo escuta-se as cadeiras sendo reposicionadas e champagne servida em taças francesas)

Agora podem me perguntar: e se o registro integral deste nosso colóquio viesse a público? Pois eu lhes digo: que venha. Já assumi — digo isso por mim, mas tenho certeza que uma parte dos colegas daqui me respaldam — chega de jogar na defensiva.

(Sons de copos brindando)

Nós, agentes altivos e guardiões da Carta sabemos muito bem e melhor do que ninguém o que é o melhor para a Nação. O senso comum — há muito tempo confundido com a opinião pública — é desprezível. Não pelo que ele tem de simbólico em um Estado, mas porque não reflete a erudição necessária para entender os temas complexos com os quais lidamos no dia a dia. Eles ameaçam parar o País? Já fizemos isso faz tempo (riso solitário). Vão às ruas? Isso não quer dizer nada. Não sabem, não tem ideia com quem estão lidando. E podem anotar, pois agora perdi a modéstia (riso solitário), se preciso for repetiremos nosso grande Mentor e vamos colocar tudo abaixo para reconstruir tudo do zero como nunca antes na história deste País.

(Aplausos, interrompidos por som de multidões enfurecidas se aproximando)

A saída de emergência está pronta?

Evacuemos senhores, evacuemos.