Paz agora, ou calem-se para sempre.

Paulo Rosenbaum

12 de maio de 2021 | 09h00

Convencionou-se traduzir a palavra shalom שלום (em árabe salam/salem/shalam) por paz. Paz, verdade e justiça são, segundo a tradição mosaica, os três pilares sobre os quais se assenta o mundo. Mas shalom é uma destas palavras-conceito, como tantas no idioma hebreu. Na palavra repetida mais de duas centenas de vezes na Torá, a Bíblia hebraica, sua polissemia expressa uma imensa variedade de significados: “apenas uma saudação amistosa, estar seguro, saudável, perfeito, completo, sensação de bem-estar e harmonia interna e externa – integridade, integridade, saúde, bem-estar, segurança, solidez , tranquilidade, prosperidade, plenitude, descanso, harmonia; a ausência de agitação ou discórdia, um estado de calma sem ansiedade.”

Seria inútil esconder minhas motivações com parte da minha família vivendo em Israel e passando os últimos dias trancadas em bunkers. Como articulista tento racionalizar, e evidentemente malogro, afinal não se expurga da escrita a sensação de impotência somada ao sentimento de medo e vulnerabilidade.

O senso comum diria que ninguém gosta de guerra, muito menos de participar, à revelia e diretamente, de um dos mais antigos conflitos do planeta. Mas, entre o senso comum e a realidade existe um aglomerado, duro, impermeável, sem qualquer porosidade: o fanatismo. Nota-se uma distribuição equitativa de gente fundamentalista pelo mundo. Há fanáticos laicos e religiosos. Fanáticos de direita e de esquerda. Fanáticos ideológicos e anarquistas. Fanáticos por criminosos e por heróis sem caráter. Fanáticos racistas e que aqueles que matariam por causas. Existem fanáticos judeus, muculmanos e cristãos. Há também os fanáticos pela paz a qualquer custo.

Mas há que se fazer uma distinção clara entre fanáticos que tem poder e subsídios internacionais para produzir e lançar mísseis sobre populações civis como é o caso dos terroristas de Gaza — que até agora lançaram 1.000 mísseis sobre mais de 50 cidades de Israel incluindo Tel Aviv e Jerusalém, cidades com 500 mil e quase um milhão de habitantes respectivamente — e os fanáticos contidos por um Estado pragmático e, na maior parte do tempo, responsável.

É evidente que devemos rezar por paz em suas múltiplas acepções. Mas a qual preço? E o direito consagrado à legitima defesa presente em todos os códigos penais civilizados do mundo? Pois é disto que quero tratar aqui. Começaram a chover protestos pelo mundo contra Israel e a resposta tímida das redes sociais foram posts sobre “eu apoio o direito de Israel a se defender do terrorismo”. Soa surreal para o leitor?  É surreal.

A antiga declaração de guerra foi substituída por fatos que roubam a função dos diplomatas que andam confundindo discrição com inércia. Há que culpe a omissão da atual administração americana pela escalada de violência que mais uma vez atinge a região. Ao voltar a oferecer recursos financeiros inauditaveis para a autoridade palestina, que pratica abertamente o “pay for slay” em tradução livre “pagar para matar”, política (sic) que incentiva e premia “cash” por atos de violência praticados contra judeus, houve um aval tácito para que o ciclo de conflitos se reativasse. Viu-se renascer, dentro de Israel, os “pogroms”, a prática de ataques rituais e tentativas de linchamento contra judeus foram registrados do deserto de Neguev às cidades onde populações árabes e judaica conviviam  com relativa calma durante décadas como em Lod. Ali, mobs,  com hordas de delinquentes, queimavam sinagogas e apedrejaram judeus. Cenas dignas dos expurgos da era nazista. Era esse afinal o sentido do slogan preventivo “nunca mais”?

Os mísseis dos terroristas de Gaza são precários? Sem pontaria? Não é bem assim e cada vez é menos assim. Trata-se de um exército organizado e bem treinado. A escalada rumo a um conflito de maiores proporções já é uma realidade acompanhada pela clássica surdez aguda ao bom senso. Por outro lado, deve haver bom senso no trato com quem prega abertamente o extermínio do Estado hebreu?

A questão que agora se coloca já é outra: haverá uma proporção para estabelecer a justiça e, portanto a calma? E quanto aos ataques maciços de misseis sobre populações civis?  Mesmo longe de ser perfeita, a única democracia consolidada no Oriente Médio encontra-se perplexa, sob ataque bélico direto contra áreas civis, enquanto as redações das principais mídias do mundo decidem se chamarão organizações como o Hamas e a Jihad Islâmica militantes, resistência ou apenas grupo armado. Organizações consideradas terroristas pela grande maioria dos países, incluindo União Europeia e Estados Unidos. Como disse uma entrevistada do centro de estudos judaicos quando provocada pelo entrevistador da BBC World News: “o que se esperava quando há uma política de omissão e desengajamento constantes adotada pelos seguidores de Obama numa região vital como o Oriente Médio?”

Antes, e é bom que se divulgue, segundo a halachá (a hermenêutica judaica das leis) “numa guerra há sempre o dever se se buscar uma saída pacífica antes de se engajar em hostilidades”. Eis que agora há na mesa uma generosa oferta de paz aos agressores, desde que a chuva de mísseis cesse, imediatamente, dentro das próximas 24 horas.

É pouco provável que aconteça.

O desfecho é previsível. Decerto Israel será mais uma vez vilipendiado com as falsas acusações de praxe entre elas a campeã da distorção intelectual, a de prática de “resposta desproporcional”.  O incansável sentimento latente antissionista/antissemita lançará mão de todos os seus álibis para acossar Israel. Ora, mesmo assim, a razão estará em pé para mostrar que a grande e inaceitável desproporção é a de linchamentos antissemitas e a de um terrorismo municiado com foguetes.

Paz agora, ou calem-se para sempre.

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