Pé frio.

Paulo Rosenbaum

08 de dezembro de 2015 | 14h54

Desde criança desconfiava de sua sorte. Mas foi como adulto que Osney Ferro teve os primeiros indícios, ainda que nunca uma convicção. Foi sob enxurrada, mas nunca tinha visitado um estádio tão impressionante. Tinha até TV no espelho do banheiro. Por várias vezes — se estava presente no Estádio — seu time  perdia ou empatava, notou que bastava torcer por ele. Funcionava ao vivo e presencialmente, mas também que o fenômeno se repetia igualmente quando assistia eventos em sua casa. Como exemplo, numa temporada dos 38 pontos disputados ele havia feito a agremiação perder inacreditáveis 32. Inicialmente entrou em negação. Mesmo quando lhe mostraram a irrefutável planilha: sempre que estava presente e torcia, seu time declinava. Numa ocasião por sugestão do chefe da segurança do Estádio, resolveram fazer um teste à sua revelia. Num jogo decisivo forçaram-no deixar por 20 minutos as dependências da Arena e o distraíram com interrogatórios para que esquecesse da contenda. Seu time imediatamente fez 3 gols. Bastou ele ser reconduzido para dentro do campo e o impossível aconteceu: o adversário reagiu e num jogo antes considerado ganho, bastou apenas 3 minutos e 22 segundos para que o time visitante se recuperasse e empatasse. Aos tapas arrastaram-no para fora da Arena e o empate foi garantido. E assim era, nos estádios, nas votações, nos concursos de canto, e em todos as pessoas e eventos nos quais torcia. O assunto virou tabu para ele e para sua família, que também passou a se precaver. Era desconvidado para ver defesas de tese, apresentação de dança e até barrado em concursos.  Ele preferia não encarar de frente sua incrível capacidade de estragar o prazer individual e de milhares. Quando ficou adulto, aconselhou-se com videntes. Tentou banhos de sal grosso, esfregou-se em cristais de ametista, fez imersão em agua santa da nascente do Orenoco, e até fez promessa de não comer tapioca por 2 meses seguidos. Nada parecia funcionar. Osney virou uma celebridade ímpar, destas da qual se quer distância. Uma equipe multidisciplinar fez questão de investiga-lo. Com todas as despesas pagas ele foi monitorado a jogos de hockey, lutas de box e frequentou disputas de xadrez. Quando estava presente e torcia a favor, campeões invictos perdiam, lutadores que nunca tinham sido nocauteados, caiam e enxadristas, grandes mestres internacionais, cometiam erros primários. As vezes, era procurado e lhe ofereciam dinheiro para não torcer. Ele jamais aceitou. Na verdade, reagia com desprezo ao diagnóstico e estava respaldado por cientistas céticos que afirmaram que os estudos que comprovariam sua suposta falta de boa sorte eram muito mal conduzidos. Isso durou até que uma equipe da afamada Revista científica Nature aplicou um teste usando metodologia irrefutável. Usando critérios  triplo cego cruzado e o rigor da lei das probabilidades a estranha confirmação apareceu. Na verdade e de fato, ele passou a reconsiderar eventos dos quais participou e resultaram se não em problemas, no mínimo em embaraçosas consequências  para aqueles que estavam a sua volta. A falta de sorte passiva haveria de ser  também um indicio indireto de que ele era uma espécie de talismã às avessas? Ele achou que sim. Consultou Fabis S., seu mais novo amigo, notável conhecedor da índole humana, que lhe confirmou, com certa relutância, que sua falta de sorte era do tipo passiva, tão nociva quanto a ativa. Ferro realmente atraia mais derrotas do que qualquer pessoa conhecida. E estava confirmado (num célebre paper, “The Jinx” sem reserva editorial, publicado em 2018) que agora Ferro poderia ser científica e oficialmente considerado um “pé frio contumaz”.  A partir dali ficou melancolicamente famoso pelo mundo. Duvidas permaneciam: qual tipo de energia Ferro emanava? De onde afinal vinha a boa sorte dos outros? Depois de vagas e inconstantes lembranças que o irritaram ele passou de refratário a crédulo em sua capacidade involuntária de interferir negativamente nos resultados. A hipótese parecia ter forte fundamento empírico. Por fim, deprimido e isolado, Ferro retirou-se da vida social para experimentar extenso período recluso. Passou anos sem frequentar jogos, lugares públicos e reuniões sociais, e foi sendo esquecido pelo assedio da grande mídia. Somente no ano decisivo de 2015, quando o País afundava, sua sorte mudou paradoxalmente. Era época no qual o impedimento de um presidente da República — fácil falar disso agora, dez anos depois com o País recuperado da tormenta, ainda hoje há muita relutância em pronunciar os nomes que nos levaram à bancarrota. Pois naqueles dias com uma votação decisiva em jogo, a oposição já se conformara com a iminente derrota, Ferro foi recomendado pelo amigo para um vereador da Capital, que desesperado, acionou amigos em Brasília. Naquela noite chuvosa estranhou a longa fileira de carros pretos que aportaram em frente de sua casa. Foi surpreendido com a presença de uma dúzia de parlamentares graúdos, que lhe fizeram diretamente a proposta, imediatamente recusada por Osney. Só depois de horas de argumentações foi cedendo: a contragosto convencera-se de que tinha o dever de ajudar o País. Um jato particular seguiu para a votação no Congresso e Osney Ferro foi infiltrado do lado direito do Senado, onde ficava a ala governista da base aliada, dentro da Comissão Especial que analisaria o impedimento. Contrariamente às suas convicções, ficou torcendo contra a aprovação do pedido de afastamento. Sua estrela brilhou. Pela primeira vez entendeu sua missão na vida. Nascera para aquele instante. A presidente sem vocação foi enfim afastada — tendo depois confessado, já como candidata ao senado derrotada, que rezou muito para ser bloqueada naquele final de ano e que quando renunciou aquele teria sido o momento de maior alivio de toda sua vida inepta. Nos documentários os depoimentos de governistas da época demonstravam toda perplexidade com o fato: “nunca, jamais entendemos como foi que perdemos”. Osney Y. Ferro se tornou o herói anônimo daquela inesquecível noite histórica.

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