Pessach e Páscoa: libertem as idiossincrasias

Pessach e Páscoa: libertem as idiossincrasias

Paulo Rosenbaum

03 de abril de 2015 | 17h19

Pessach e Páscoa: libertem as idiossincrasias

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Alguns dias são mais díspares que outros. Hoje é um deles. Reparem nos poetas alienados, nas alegrias infundadas, nos sonhos para um término.

Nossa única constância vive dessas travessias inconclusas, na carne esquecida, nas mortes mitigadas, na perfeição das cascas de ovos, num mundo sem rugidos nem gemidos.

Abram alas: precisamos de espaço, ideologias e seus mentores que esperem, enfim é chegada nossa vez de passar. Merecemos dizer o que queremos, exigir o que desejamos, mostrar ao que viemos. A passagem pode não ter beira nem margem, pode não acrescentar beleza nem coragem. A autenticidade é insubstituível. Tudo passa, limbo e muro, enquanto a vida insiste:  futuro.

Se sobrou qualquer significado para as tradições? Recobrar sentidos que pedem expressão, presença de símbolos que isolam certezas. Hoje, dia ideal para cabeças feitas, desfeitas. Mesas postas na nova ordem. Sequencias sem ritual, formas sem apego, ritmos sem hiatos. Religiões e não religiões. As idiossincrasias são sagradas,  são elas que podem nos restituir a união.

Na paz permanentemente adiada, acordos podem ser pesadelos.  E desacordos são lá uma alternativa? O oriente é médio. Hoje é o dia no qual as regras foram abolidas, réguas desprezadas, tréguas assimiladas. Nenhuma paz será derradeira mesmo que todos os sonhos sejam roubados por guerras rejeitadas.

O dia cuja passagem tornou-se permanente. No qual presidentes falam baixo, juízes benévolos, juízos perfeitos. O poder humilde. Na travessia, a infância dos homens transformou nossas retinas para sempre. O fosco do céu apagou-se. Impeliu brilho aos confins. Para que o Cosmos ajeitasse as coisas eis o dia da leniência abstrata. Da pax correlata. Da vigência temporária. Da flexibilidade originária. Coacervados mudos e algas falantes, evolução errante. Campos que alimentam as raças.  Animais mutantes e homens persistentes.

Hoje, dia das faunas mistas. Das concretudes explicitas. Das mulheres sem dono. Dos radicais enjaulados. Da democracia para espíritos ativos. Da incontinência dos libertários. Das conchas radiofônicas. Da velhice jovial. De palcos cordiais. Da derrota do inevitável.

Hoje, a tragédia foi abolida. Desvelada a calçada até a utopia, suspendam toda política. A razão da liberdade invadiu toda análise. Eis o dia em que a casa arderá com convívios. A noite da refeição direta. Diante da uva transformadora. O dia da interlocução como único valor. O momento da síntese Eterna.

Não importa como acordaremos: este é o dia.

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