Pisando em Ovos

Pisando em Ovos

Paulo Rosenbaum

11 de junho de 2013 | 22h36

“A legislação indigenista brasileira, diz, é avançada e elogiada no exterior, e revogá-la colocaria o Brasil na incômoda companhia dos países que reprimem minorias como os curdos, o que daria ao País o ‘Nobel de genocídio’.”

O conjunto de opiniões de uma determinada época, esmaga qualquer originalidade. Querem uma prova? Nunca foi tão fácil tomar o mediocridade por genial. A média se sustenta deste senso comum. O senso comum é aquela fantasia tomada como verdade e que depois achamos que devemos fazer o favor de compartilhar com os demais. É uma noção antecipada, frequentemente imatura e preconceituosa das coisas que incorporamos coletivamente.

Vejam o caso dos índios, que segundo o senso comum, representando apenas 1% da população, não mereceriam os 13% das terras que para eles estaria destinada na política indigenista. Como nos elucidou o antropólogo João Pacheco de Oliveira, não são nem terras indígenas, mas terras da união, reservas ambientais e área de preservação onde o Estado pode, ali, proteger minorias de uma predação étnica inevitável. Pois o Estado brasileiro está, e não é de agora, aos poucos, abrindo mão desta proteção. Isso prova que nem sempre a maioria tem razão e que a razão pode ser obra de opiniões mal calibradas.

Além disso, estamos a um passo de um tremendo retrocesso econômico, que ameaça se estender às liberdade civis. Mas isso não parece incomodar ninguém a ponto de sair por aí, denunciando a coisa toda. A maioria parece hipnotizada pelo bem e mal estar econômico, ainda que coisas muito mais graves e urgentes estejam acontecendo.

Ou a confrontação à constituição não se enquadra nisso? O senso comum é, portanto, uma força que força a capitulação do pensamento articulado em favor do que é mais fácil. Omisso por natureza, o senso comum acaba endossando a loucura. Insanidade no sentido de que “uma vida baseada em aparências” é um modelo perigoso de empobrecimento cultural. Sendo a versão mais acabada de acomodação intelectual, quando o senso comum migra à política tende a se tornar um comportamento social progressivamente conservador e autoritário.

Como uma característica aparentemente inofensiva como o senso comum pode se tornar tão ameaçadora para a sociedade? Porque o senso comum é uma central de boatos e facilmente decreta a abolição de qualquer análise de conteúdo. Além disso, estabelece linhas imaginárias que ninguém ousa ultrapassar. São criadouros de tabus. Trata-se de falso consenso que atua por intuição e pode chegar a se confundir com a opinião pública. Deste ponto em diante estamos a meio passo da manipulação. É a matéria prima com a qual trabalha os marqueteiros políticos. Pisam em ovos para não ousar contrariar o senso comum, por mais estúpidos e equivocados que sejam. As redes sociais e os programas de auditório evidenciam isso quase ao estereótipo.

O problema é que essa construção costuma ser o oposto dos consensos pactuados e dos acordos tecidos à base do diálogo e da compreensão mútua, verdadeira base do entendimento democrático. Pobre nova classe média, acusada pela esquerda de ser o atraso e pela direita de ser a base das eleições plebiscitárias que entronizou as últimas administrações.

Portanto, ao mesmo tempo em que vários destes falsos acordos são validados — já que é o que a maioria pensa que pensa — consensos construídos não têm nada a ver com o senso comum. Os consensos resultantes dos acordos e estudos acabam sendo tomados como absurdos já que frequentemente são contra intuitivos.

Mas as reações alimentadas pelo senso comum vão para bem além do conservadorismo da sociedade.

Pena. Para não pisar em ovos vamos acabar pisoteando a constituição.

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