Poder viciado

Paulo Rosenbaum

17 Março 2018 | 12h24

O poder viciado? Hoje ele tem uma prioridade. A única. Precisam escapar do juízo, dos jurados, dos julgamentos. Poderíamos inferir muitas coisas, discordar do uso abjeto com que os infortúnios são usados. Ficar indignados em detectar como a manipulação política nos direciona nas causas e consequências do trágico.

Mas, em nome da nitidez é bom que se diga, antes de tudo,  que a vereadora carioca, neste evento, foi vítima de um ato de terror.  Assim como todo transeunte, como os policiais, como os cidadãos que não puderam contar com ninguém e, agora, abandonados em suas sepulturas. É preciso suspender o juízo ideológico para declarar que nada justifica a morte de inocentes. E, ao mesmo tempo, tudo se justifica no combate contra aqueles que matam inocentes. Sim, inocentes. A maioria. Mas qual maioria? A maioria encontra-se submetida. A maioria está amarrada. A maioria está engessada pela inércia. Tolhida pelas explosões de informações contraditórias plantadas pela realidade, as naturais e as artificiais. Com todos os fuzis à mostra é preciso explicitar: sem expor a marca do cassino que representa — há mais de uma rede apostando pesado no “todos contra todos”.

Todo mundo sabe, a guerra é contra os civis, mais de 60.000 mortos por ano. Sete assassinatos por dia. Para além da epidemia de homicídios quem se importa com a dor individual? Quem só pensa no acerto de contas? Sob o prédio imponente da orla arrematado pelos graúdos e impunes chefes do crime, os mandantes controlam as câmeras com drones. Dominam completamente o ciclo malévolo que criaram. Trafico de influencia e desvio de função. Tempo de latência e pesquisas de opinião. Tudo se mistura num turbilhão de medo e confusão.

Aqueles que se dizem contra hegemônicos montam a escada para alcançar definitiva e permanentemente a hegemonia. Ninguém precisa supor isso. Não depende de interpretação. Eles confessam em suas timelines, em seus blogs, em seus programas partidários: é isso mesmo. Com a cabeça feita pelos psicofármacos das drogarias ou pelos fármacos sem patente, negociadas por um punhado de pacotes, que prometem vender a leveza perdida, afinal a grande demanda atual é anestesiar toda má consciência. A violência é o ópio do povo.

Estamos submissos a uma omissão programada e programática de um Estado abúlico. Por planos de sabotagem rabiscado em bilhetes. De uma pacificação que acabou como capitulação ao fuzilamento da sociedade. O Estado que não funciona é cúmplice. Os interesses sociais de quem deveria zelar pela sociedade há muito deixaram de ser direitos coletivos. É possível sentir na pele que o poder age a favor de quem demonstra força. De quem a exerce sem relutância. Com balas, com sangue frio, com a mira em punho, com truculência profissional, como usurpação das funções. Nas contundentes palavras de Viktor Frankel — psiquiatra sobrevivente do Shoah que fundou a corrente conhecida por logoterapia:

“O sistema político está comprometido porque o poder está nas mãos de minorias que usam o poder de forma indecente.  Só existem duas raças: a raça das pessoas decentes e a raça dos indecentes”.

Cedo ou tarde a decência terá que impor sua paz.