Privatizem os homens públicos

Paulo Rosenbaum

07 Março 2018 | 16h20

Como primeiro homem público privatizado da história ele não sabia se deveria agradecer ou lamentar sua nova condição. Para ele era inédito ser um homem normal, cidadão equiparado a todos os outros na República. Estranhou sentar em frente à mesa por 8 intermináveis horas para exercer um ofício remunerado. Com alguma melancolia, percebeu que precisava acordar, usar transporte público para dirigir-se ao seu emprego, segundo na vida, aos 68 anos. Claro que para ele, ex-homem público, que sempre se considerou um trabalhador e até forjou uma sigla com o nome, os políticos e os parlamentares que elaboravam leis para que o resto da sociedade obedeça não são meros cidadãos. Líderes que comandam o rebanho não podem, por princípio, estar submetidos às mesmas regras que os comuns.

No íntimo, ele e seus companheiros sempre souberam que, em sua grande maioria, sua atividade não passava de um pseudo protagonismo. As leis criadas e recriadas ao gosto dos fregueses não passavam de regulamentos medíocres, ordenações inúteis e até mesmo prejudiciais ao conjunto da sociedade. Apesar disso ele gostava de discursar e frisava sempre o quanto se esforçava para obedecer o juramento que fez de defender os valores republicanos.  “Viemos recuperar a ética na política e atender ao conjunto da sociedade”. Por mais que tentasse, ele não conseguia se libertar de uma ideia obsessiva — desde que assumiu o cargo de deputado federal e finalmente presidente da República aclamado  — de que a sociedade tinha um débito com ele. Quanto mais ele governava mais ele se convencia de que a dívida era impagável.

Eis que aqueles que o orbitavam começaram a pensar como ele. E, ele mesmo, começou a acreditar nas palavras de ordem e slogans mistificadores que criou originalmente para ludibriar as massas.  Sua tese foi ficando cada vez mais sólida: no lugar de civilizar as instituições ele as rebaixou ao servilismo corporativo. Em vez de transformar a cultura da corrupção ele a alçou a um patamar inédito e naturalizando-a como mais um que fazer político.   Foi assim que passou a entender ser “homem público” no Brasil significava pertencer a uma casta, ponto final. Este berço de homens intocáveis e invioláveis era para ele a prova de que sua concepção particular de democracia triunfara no País. Aqueles que nasceram ungidos para governar estão — sem falsa modéstia — num patamar acima do resto. E assim como ele seus parceiros se associaram numa coalização onde o mal feito vingava desde que as urnas consagrassem os nomes que ele abençoava com a maldição fisiológica. Encontrou parcerias proficuas em todos os partidos para saquear o Estado, com salvaguardas plenas dos outros poderes e do grande capital.

Chamem como quiserem: evolução, darwnismo social, triunfo da esperteza, ou ética pessoal. Segundo ele ou “a sociedade aceita o que idealizamos para ela ou é melhor que ela nem exista”. A seita cresceu e o aparelhamento tornou-se natural, afinal ele personificava o “nós” e todo resto da sociedade era apenas o “eles”.  A desconstrução começou tarde, quando os postes eleitos por ele demonstraram suas desastrosas autonomias destruindo a economia. Foi quando perderam a esportiva sob vaias épicas e protestos de milhões.

Ainda naquele seu primeiro dia de sua volta à vida civil, notou que a palavra “emprego” e “assalariado” lhe causava um imitigável sentimento de mal estar difuso. Ele bem que tentou consertar a linguagem, uma de suas especialidades. Exigiu que pelo menos os seus lá de casa mudassem a forma como chamavam sua nova tarefa: doravante deveriam somente se referir às suas atividades como “oficio” ou “atividade regular remunerada”, jamais “assalariado”, nunca “funcionário”. Mas, apesar do apelo ter sido atendido por alguns dias, parentes logo esqueceram e voltavam a pronunciar as malditas palavras.

O verdadeiro choque foi quando ele completou um mês de atividade regular remunerada. Ele olhou a página recebida das mãos do chefe do RH e procurou, mas era aquilo mesmo, só meia página com um boleto. Ele nunca havia visto um holerite, sempre teve secretárias, assessores, seguranças, churrasqueiros, fidalgos, discípulos, pupilos e vassalos para fazer essa e outras tarefas de pequena monta. Ele não poderia confessar nas redes de TV nem nos comícios do partido, mas ele passou a se conformar que se não fosse o acumulo que conseguiu na vida publica, toda sua carreira seria um completo embuste.

Sua prole e futuras gerações estariam garantidas para todo o sempre e sua recém criada casta sobreviveria até às mais graves crises econômicas, a maioria delas, gerada pela sua errática política que ele mesmo apelidava de “contabilidade criativa” e “nova matriz econômica”.

Às vezes, só por diversão, ele pedia que seu cozinheiro lhe apresentasse seu saldo bancário e a lista de suas propriedades amealhadas através das vantagens indevidas utilizando o dinheiro público. Quando alguém um dia ousou lhe perguntar se não não sentia nenhum remorso pelo que fez ao País, ele respondeu com a convicção dos mitômanos:  “não tenho meu caro, encaro isso como um ressarcimento, a sociedade me deve tudo isso e muito mais”. Costumava ser aplaudido de pé por aqueles que usufruíram dos benefícios de seus decretos e medidas provisórias. Foi assim que elegeu postes e — com a ajuda da mídia e de intelectuais graduados — ficou blindado e imune às críticas.

Agora, sem bens, com amigos em buracos e esconderijos, e com a pena alternativa que se seguiu à sua temporada na prisão ele teria sua chance de ressocialização. Segundo o despacho dos juízes que em uma inédita sentença proferiu:

“Não há uma solução simples mas nós do judiciário entendemos que o primeiro passo será privatizar os homens públicos.  Seu maior crime não foi a corrupção sistêmica, nem mesmo a fortuna pessoal que acumulou, mas ter destruído a democracia inclusive criando personagens idênticos, aparentemente opostos a ele.  Agora que não temos mais um Supremo, mas este imenso colegiado de juízes independentes, sem vínculos partidários ou ideológicos, podemos avaliar melhor como o sistema foi pervertido. Só com este tipo de apenamento estes homens que já foram públicos, e agora privatizamos, poderão conhecer o ordinário e abandonar coercitivamente a fantasia de que são especiais. Desta forma é melhor que este condenado passe a vivenciar um pouco a sociedade que ajudou a criar. Que ele aprenda como é experimentar a vida e as dificuldades de um homem comum. Que sinta como é viver como a maioria das pessoas. Sabemos que este senhor  — que segue com sintomas de que é um grande personagem e tem aspirações messiânicas  — deve vivenciar essa novíssima modalidade de punição como uma última terapêutica. Mesmo, como reiteram os laudos, estando no limite do incurável, acreditamos que ele ainda tenha chances de ser reeducado”.

Ao final daquele mês de trabalho, repreendido por fazer “jogadas” com seus colegas de sala, tendo simulado várias doenças e depois de tentar convencer seu chefe a dobrar sua fortuna insinuando que teria contatos para conseguir um pacote de desonerações, foi despedido por justa causa. Sem emprego estável ele voltou para o sistema prisional, onde atualmente cumpre o restante da pena e negocia palestras em troca de redução da condenação prometendo dar um jeito nos que o mandaram para a cela.