Protetorado Oriental do Embustão

Paulo Rosenbaum

25 de junho de 2017 | 11h21

Num lugar distante, o Protetorado Oriental do Embustão, uma poderosa organização decidiu que a democracia precisava mudar. Uma reunião de supostamente notáveis com moral ilibada, indicados por não notáveis sem essa qualidade, iniciou aquele que foi chamado de “consenso dos bravos pela governabilidade”. A única coletiva convocada desde que instauraram o novo regime foi dada com exclusividade para a única rede que, desde o inicio da noite apoiou o movimento sob um farto e memorável churrasco. As carnes mais refinadas e impagáveis foram servidas e subsidiadas com dinheiro público naquele que foi carinhosamente apelidado de “Ultimo baile do arquipélago tributário”.

Neste único briefing, o comando avisou que em pequeno comitê e às pressas, reformulara toda a Constituição federal através de interpretações ousadas e repletas da nova hermenêutica, aquela que definiram como “o único parâmetro justo no reino de poderes injustos”.

A nota divulgada para a mídia amiga em rede nacional consistia em não mais do que três parágrafos:

“Considerando a desordem e preocupados com o decisivo momento político nós, este grupo de notório saber e imparcialidade a toda prova, resolveu chamar para si a centralização da nosso Protetorado. Nós, que incansavelmente zelamos pelas leis achamos que três poderes harmônicos é pior do que um único com uma nova visão  de justiça prospectiva. Nem todos podem enxergar longe e isso só é conquistado com uma mistura de muito estudo e sabedoria inata para julgar a complexa natureza da realidade política.

Isso posto, decidimos nos outorgar todas as licenças para revisar a carta constitucional, que, como todos sabem, é obsoleta. Em nosso querido Embustão, de agora até que o bolo fermente e cresça para que possamos devolver o poder, passam a valer regras monocráticas, sempre pautadas pelo respeito corporativo e pela independência da opinião publica. Opinião que, aliás, anda ousada e parece falar mais alto do que deve. Fundamos um novo momento usando um neologismo — com as devidas licenças poéticas  —  de “pleito da denocracia”, por uma democracia denotativa.

Neste campo, como todos deveriam saber, somos os campeões do diálogo e principalmente pelo respeito à autonomia das instituições. Todavia, as mesmas não parecem ter mais vigor ou serventia. Estão obsoletas, falidas, decadentes. Portanto assumimos sem a menor modéstia. Nosso papel atual é salvar nosso protetorado das mazelas de gente que não sabe votar e acompanhar de perto os abusos em campanhas eleitorais. Para isso, doravante todo fluxo será por nós controlado, com vistas a coibir abusos financeiros que não interessam. Que os críticos se calem pois salvar é sim a única palavra:  somente com nossa inteligência estratégica, astúcia desapegada e fúria apartidária  — como todos puderam observar em nossas transparentes sessões secretas  — chegaremos a bom termo, e como nunca antes na história deste Protetorado implantaremos um ciclo de euforia econômica e fiscal sem paralelos nos registros mundiais.

Seguem assinaturas do colegiado que compõe o

Consenso dos Bravos pela Governabilidade do Protetorado Oriental do Embustão.