Psicanálise selvagem

Psicanálise selvagem

Paulo Rosenbaum

03 de julho de 2014 | 16h09

Nossa única missão é ganhar. Foi o que disseram. Depois, vieram ameaças. Quem daqui conhece a história do fantasma do Barbosa? A maioria pensava que falavam de uma outra pessoa. Mas não. Era sobre o goleiro. Na véspera de cada partida nos faziam ver o filminho. Histórias do Maracanazo. Aumentavam o volume. Faziam a gente decorar o grito de guerra “asco, asco, asco, nada de fiasco”. Depois, tortura. Por três dias tivemos que aguentar o silêncio do estádio em 1950. Aquele ruído dos sapatos descendo das arquibancadas. “Vocês querem que isso se repita, hein hein?” Ficavam berrando. Aí mostravam as manchetes: Vergonha. Morte do futebol e sei lá o que mais. E o professor fazia questão de deixar claro: “ganhar ou morrer”. Ele sempre foi do tipo verdade nua e crua: “vitória não é dever, é obrigação”. Se alguém desse um pio ele se saia com “não é por por vocês nem por mim, é pelo amor à Pátria”. Para ele, essa coisa de meio termo não existia. Nem segundo lugar. Nem fazer bonito. Nem perder com dignidade. Começamos a ficar aflitos. Só um teve peito para perguntar: “Mas e daí se perdermos? Isso por acaso é vergonha, professor?” Olhamos todos ao mesmo tempo para ele. Ou o cara era muito ingênuo ou sei lá. Depois disso, o clima degringolou. Bem que eles tentaram aliviar.  Passaram vídeos do Garrincha, da seleção de 70. Esses caras eram mágicos, nós não. Ou eles te deprimem ou te humilham? Lá pelas tantas, um figurão da comissão veio falar dos perigos que corríamos se fracassarmos. Horror mesmo foi antes da penúltima partida: “gente graúda, lá de cima, está de olho em vocês. Depois da Copa, vai ter eleição, preciso falar mais?”. Dali em diante, foi ladeira abaixo. Antes do último jogo, o menino começou a tremer, dava para ver que ele já entrava derrubado. Chorava de dar pena. Foi barra pesada. No dia seguinte, de madrugada, lá pelas 2, veio a doutora. Acordaram todo mundo. Só nós e ela na salão. Ela parecia legal. Falou que todo mundo poderia se abrir. Tudo que fosse dito ali, ficaria entre nós. Eu, que já estava mesmo na reserva, criei coragem e perguntei: por que de repente os outros times não têm medo? Ela enrolou, não sabia o que dizer. Ai o goleiro, o reserva do reserva, desabafou: é  muita pressão!  Ela sentou numa cadeira, pensou um pouco e falou baixinho: “Por que não tentam ser vocês mesmos?.  Divirtam-se com a bola. Não dá para levar tudo a ferro e fogo. Não se levem tão a sério. As pessoas criticam porque querem jogos mais alegres. Sentem falta da molecagem, da ginga, do jeito que só a gente têm. Onde isso foi parar? Deve estar aí dentro de cada um. Não pode ter sumido. Se o esquema tático tá matando vocês, a solução é soltar a criatividade”  Todo mundo ficou quieto, olhando para ela. Veio aquele click! Olhamos uns para os outros, sem conversa, sem palavras. Até que o moleque levantou a mão: não pode ser como na concentração da Holanda? A gente se sente meio enjaulado. Parece ditadura, manja? Todo mundo riu. A psicóloga só deu um sorriso e se levantou. Ela ia responder quando atendeu o telefone. Saiu rapidinho da sala. Não dá para jurar, mas acho que ela estava chorando. Perto da porta, antes de sair, deu uma piscadinha para o garoto e falou “Pensem. Não vou poder mais ajudar vocês.” Só depois a gente soube, ela tinha sido demitida. O moleque dançou. Estava escalado para jogar. Uma hora antes do jogo vieram falar que ele tinha sofrido distensão muscular. Quem chorou foi cortado. Aí passou dos limites. Fui de quarto em quarto e falei que a gente tinha que se rebelar.  Combinei que se a gente ganhar não vai ter essa de erguer a taça em palácio nenhum. Esse cara da Fifa que se vire com a ira do povo. Nada de rampa ou jaburu. Nada de ficar posando para foto. Aplaudiram e pela primeira vez desde que estou internado aqui, respirei direito. O resto vocês já sabem.