Querido Neto

Querido Neto

Paulo Rosenbaum

17 Outubro 2014 | 13h45

Respondo sua missiva de ontem a noite. Não sei usar este negócio direito, mas aqui diz: on line. Vamos ser rápidos. A chefia está preocupada e convocou Estadistas que já fizeram alguma coisa pelo País. Vou ter que dar uma subida até lá. Eu sei, vi, ouvi, testemunhei, você está fazendo o máximo. O povo vai percebendo. Claro, escutei sim, filho. Para constar, cá entre nós, você sempre foi o favorito. Exatamente, isso você herdou de mim. Bate pronto. Mas, mantenha distancia, recordou a sequencia? Depois do soco inglês, vêm os jabs de direita. Cruzado de esquerda? Esqueça, desperdício, ela não aguentaria o tranco. Nenhum conterrâneo decente quer o outro beijando lona. Lembra do ditado? Aquele lá de São João? Quem luta na sujeira, colhe lama. Não era bem isso, parecido. Cansei de falar isso ao Getúlio, mas ele foi ficando teimoso. Aquele chimarrão fervendo! Sabe o que me levantou? Aquela malícia que ela insinuou, e você, assumiu e devolveu com bônus. Não. Eles não sabem o que significa elegância. Senti orgulho. Eu vi, eu vi. Agressão e mentira são fáceis no começo, e a prova veio a cavalo: sustenta-las por muito tempo faz mal à saúde. Exato, é chegada a hora. Está certíssimo, autocritica. É isso que temos. Claro que lá tinha muita gente boa: mas foram sendo expulsos, ameaçados, cooptados. Querias minha previsão? Não posso, aqui têm gente muito mais qualificada que eu. Agora posso confessar? Sabe o que achei mais alentador na madrugada do outro debate? Não, não foi o próprio. Foi o videoteipe da opinião de um senhor negro de meia idade. Foi apresentado alguns minutinhos antes do início. Entrevistado sobre o que esperava do confronto entre vocês dois, ele olhou de lado para o repórter (olho no olho, não na câmera) e disse com notável determinação algo como “não tem mais ninguém bobo não senhor”. Palpito que este governo deve sucumbir exatamente porque está apostando no contrário. As contradições chegaram naquele ponto de sinuca. Já lutam entre eles. Não, não é bem isso. Não tem partido santo. Mas eles cruzaram a fronteira. Dali, ninguém nunca passou e levou. Discordo. No mundo deles isso não é baixaria, é agonia por revanche. Lembro do JK, ele dizia que incompetente é raivoso. Fique e mostre generosidade. Agora, a conversa vai ser diferente. Como já disse o escritor – aliás, vi ele outro dia com um livro do Machado numa mão ,e, na outra, uma pena toda enfeitada – quando a verdade escapa, sobram interpretações desesperadas.

Boa sorte dia 26, a família está toda aqui, torcendo pelo Brasil.

Ps – Hoje teve muita neve aqui em cima, bom sinal, bom sinal, bom sinal.