Recusa ao pó

Recusa ao pó

Paulo Rosenbaum

22 Março 2013 | 09h47

“Mestres de uma sofisticada técnica de embalsamamento, os cientistas russos que diariamente cuidam do corpo de Lenin, exposto em um mausoléu na Praça Vermelha, estão a postos para prestar serviços e aplicar seu conhecimento no corpo do venezuelano Hugo Chávez. O procedimento desenvolvido em Moscou consiste em retirar o sangue do corpo e injetar uma solução secreta.”

 

Reunião de diretoria no “Instituto de Plantas Medicinais e Aromáticas” em sua sede subterrânea no centro de Moscou.

— Senhores, a sobrecarga dos últimos tempos nos obriga a expandir as instalações e contratar mais gente. Não podemos recusar pacientes.

Jamais pronunciavam a palavra “morto”.

— Sei que nunca tivemos tantos recursos Bóris. Enquanto gesticulava Katalina encarava o supervisor chefe com uma expectativa inútil. – Mas agora é o nome do instituto que está em jogo. Aceitamos qualquer um? Mesmo os que chegam no estado deste último?
— Não vou discutir. Antes não nos cabia decidir, agora pegamos quem chega. Não é nossa culpa que virou moda conservar para sempre ditadores, presidentes da América do Sul.
— Ex presidentes, senadores.
— Dá Dá, ex presidentes, que seja.
— Percebe? Estamos sendo usados. Katalina, a única médica no grupo, apresentava dificuldades com o novo pragmatismo russo.
— Querem esses corpos em visitação permanente? Pagam bem? Nós fazemos!
— Por que não usam os modelos de cera? O “Madame Tussaud” ainda aceita encomendas…(os risos não abrandaram a carranca passiva de Bóris)
— Dra., hoje somos uma empresa, e os melhores do mundo no ramo. Chegou nossa vez. Ninguém deu bola, todos sabiam que Dimitri sempre lambia as botas da chefia.
— Alguém sabe onde eles vão expor as novas peças?
— Isso não é da nossa conta. Bóris torceu o punho e cutucou o próprio pescoço.
–“Complexo de faraó”. Assim a mídia de lá está chamado a moda.
— Se querem múmias o que nós temos a ver com isso?
— Tomar parte do jogo político deles?
— Você vive em qual mundo Katalina? Por favor, essas discussões ideológicas já acabaram.
— Símbolos em praça pública é para quem não tem memória. A médica desvia o olhar dos bocejos e agora discursa para os embalsamadores recém contratados.
Sem que ela perceba, Bóris sorri detrás dela e aponta para cima à direita indicando a direção da posição do corpo de Lenin, uma espécie de cartão de visitas do Instituto.
Em seguida, o chefe se levanta e a reunião está encerrada. Em três dias mais um comandante sairá dali pronto e embalado para alguma capital do cone sul.

Só Katalina permaneceu sentada e puxou um cigarro — largou o vício, mas ainda mantém o hábito de prensar tabaco entre os dedos.
— Isso tem um nome: recusa ao pó.

 

Cada notícia têm desdobramentos. Sob a forma de conto, prosa ou crônica a exploração imaginária de um fato é a proposta de “Conto de Notícia”. Via de regra, o link para a publicação que deu origem ao texto encontra-se acima do post.