A fé nasce das zebras

A fé nasce das zebras

Paulo Rosenbaum

24 de junho de 2014 | 09h21

 

 

Ela veio enviesada, rodopiante. Parou no travessão. Tudo parou. As ruas incertas: entupidas ou desertas. A grama não rola. Some o impacto seco do pé contra a bola. Alegria é rede estufada?  O eixo da bola, imóvel. Bicicleta sem aro. Trivela sem ângulo. Peito do pé descalibrado. Engessamos beleza com cascas. Resíduo de estrelas bordadas. Maior do mundo. Melhor do mundo. Mais caro do globo. Narcisismo de estádio. Propaganda de técnicos. Garganta dos narradores. Ex-jogadores, ex-goleiros, ex-gandulas, ex- zagueiros, ex-espectadores. Locução entravada, convocatória, admoestadora. Está comprovado. Somos uma sociedade retrospectiva. Retroativa. A fatura virá na ressaca. São bilhões para milhares. O brilho dos artistas está ilhado. Cercado por cartolas de todos os lados. Sem mágica, os coelhos emigraram. Imolamos a arte com luxo. A esfera, engolida por esquemas táticos. A bola, oprimida. Tragada por quadrados. Destravar a liberdade é parar com tanta frescura. Mandar de bico aos céus. Time era conjunto, equipe, tabela. Não há, nunca houve, time de um só. Casa bem com nossa cena política. Culto à personalidade, messianismo de ocasião, soberba do chefe.  Será o esporte redentor? Distração costuma ser manobra diversionista. As novidades destes jogos estão sendo externas. Laranjas de Amsterdã, riquezas das encostas, caminhos de Santiago, carrossel mexicano e a América que redescobre os pés. Antes que esqueçamos: pagantes não tem culpa. Vaia não é jogral. Arena não é palanque. Melancolia não é pessimismo. Nasce dos desejos arredios. De que desse certo. Da poesia movediça das promessas. Do horizonte indecifrável. Do logo mais. Do que vem depois. Da discrepância entre o que é e o que poderia ter sido. Da deselegância normativa. Da violência naturalizada. Do desprezo institucionalizado. Da abolição da criatividade. Da postergação das regras. Toda euforia é uma prévia do desgosto. Não, não creio. Quando levantarem o circo veremos o tamanho do descampado. Longa quarta de cinzas. Nenhuma redenção virá do futebol. Nem a esperança das urnas. Talvez, de onde menos se espera. Afinal, a fé nasce das zebras.

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