Retrocesso, equivalência, #AgoraÉQueSãoElas

Retrocesso, equivalência, #AgoraÉQueSãoElas

Paulo Rosenbaum

08 Novembro 2015 | 03h19

retrocessoIII

Mais uma tese arguida, e de novo, predomínio temático. A palavra mais usada na última semana? Retrocesso. Político, usado como troca de acusação pelos dois lados. Troquem progresso por sucesso. Recesso por recuo. Mudem estampas. Mexam nas cores. Rosa e azul, turquesa ou branco. Uma confusão dessas só pode se estabelecer em terreno de ideias colonizadas. Pelo que se lê nas redes sociais, mudamos para uma frequência sumária e iletrada. O antônimo de ideológico chama-se agora confrontação. O oposto de reflexão, contestação. Desde o Enem toda discussão sobre gênero é partidária ou irrelevante. Divulgar o que der na tampa. Emitir plebiscitos unitários. Enaltecer o monologo. Sem esquecer da erotização do vale tudo. O grande juri de uma só pessoa está ativo. A glamorização da estupidez. O estilo sempre livre e direto. Para os cultores das opiniões formadas o que vale é soltar o verbo. Não ler a fundo, virou virtude. A arte, um toque decorativo. A cultura, luxo recreativo. Toda penalidade, e suas variações desagradáveis — sanções, prisões, restrições e moralizações da coisa pública — devem ser abolidas. Não há, nunca houve déficit fiscal, pedalada institucional ou acordo nacional. Um estoicismo de resultados bateu fundo. A regra vai ficando clara: não há regras. O mal feito ofuscado pela generalização. As leis, golpismos disfarçadas de justiça. A constituição, uma carta de intenções sub digerida. Todo processo, sujeito ao seu avesso. O contraditório, depende da retórica.  Provas documentais podem ser desatinos acidentais. Afinal, o que é retrocesso? Literalmente? Andar ao arrepio, tornar à vaca fria. Político? Aqui, agora. Analogicamente? A borracha amnésica, que sempre volta para recusar a devida equivalência entre as pessoas.

Minha contribuição ao #AgoraÉQueSãoElas : um microconto de Lydia Davis extraído de seu “The collected Stories”, um trecho do mestrado de minha esposa, a psicóloga Silvia Fernanda Rosenbaum “Permanência e transformação: a paternidade”, além de uma poesia da estudante de design de moda, atriz e poeta Hanna Rosenbaum.

Insomnia by Lydia Davis

My body aches so —

it must be this heavy bed pressing up against me

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Silvia Fernanda Rosenbaum

Os símbolos culturalmente disponíveis, sendo com frequencia contraditórios, têm suas possibilidades metafóricas limitadas pelos conceitos normativos. Estes são prescritivos, afirmando o masculino e o feminino através de dogmas religiosos, educativos, científicos políticos ou jurídicos.

Se tais campos doutrinários podem ter sido – e o são – abertamente contestados, segundo Joan Scott a história posterior é escrita como se estas posições normativas fossem o produto do contexto social e não do conflito. A mitificar o presente – o novo pai — através de uma narrativa sobre um passado consensualmente retrógrado — o velho pai — a hierarquia de gênero atual é obnubilada, apagada, em certo sentido negada. A hierarquia de gênero é coisa do passado. Neste sentido é possível concordar com Lallemand, quando afirma sobre a puericultura francesa: tudo tem que mudar para que tudo fique igual.

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Hanna Rosenbaum

 

Mata que cresce nas artérias,

Tanta flor de cimento,

concreto e argamassa,

não quebra,

não desarma,

edifica mais muralha,

Cada andar uma ferida que seca,

cicatriza por fora,

derrete por dentro,

Barreiras sólidas,

Planejadas a tanto tempo,

E o desejo eterno,

De que um dia,

Algum trator arrebente

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