Retrocesso

Retrocesso

Paulo Rosenbaum

15 Outubro 2013 | 20h35

Para Marina, Dilma não pode ficar mais 4 anos sob ‘chantagem’

A palavra foi forte, pertinente, necessária. O necessário é uma dose incomoda. Submersos, nota-se melhor a arrogância do gigante. O periscópio de Marina Silva verbalizou o que muitos já intuíam. O retrocesso vigente não é só regressão, é estagnação pintada de progresso. O que o regime político da vez tenta fazer é postergar as tintas, e assim, borrar a percepção da composição geral. Já vimos tudo isso antes. Nos estados totalitários, na ditadura, nos governos de exceção A arte final da tela permanece sem diagnóstico. Não é só bolha econômica e volta da inflação, não é só a irresponsabilidade fiscal e a negligencia com a coisa pública. O poder impinge-nos sua agenda reducionista, anacrônica, sectária.

O contraste fica mais chocante num país de multiplicidades continentais, étnicas, políticas, temáticas. Não é cabível nada que seja totalizante em lugar algum, muito menos aqui.

Decerto, nenhum partido quer soltar o osso. Mas e se o custo for dilacerar os avanços sociais que ajudou a construir? O tudo ou nada político é jogo para lá de tenebroso. A fábrica de crises tem formula: imbróglios, cortina de fumaça. Vamos assumir que seja uma  teoria conspiratória desde que alguém conteste, o que é deixar o pau comer solto senão anular a maioria?

Uma rápida passada pelas analogias da palavra retrocesso desvenda mais do que pretende, “voltar sobre si”, “andar ao arrepio”, “virar de bordo”, “distorcer caminho” e finalmente, o mais preciso: “não manter o terreno conquistado”.

Por acaso vamos nos conformar? Alcançamos estes dias para deixar que a censura, branca, parda ou preta nos aleije de um processo pelo qual muitos deram a vida? Desacorrentamos a democracia para que políticos presunçosos usurpem a República?  Por acaso viemos para assistir grupelhos proto-fascistas e bandidos, que cresceram nas barbas da irresponsabilidade do Estado, desafiar a sociedade para espalhar terror e intolerância?

Chegamos até aqui para testemunhar a história ser varrida a contrapelo por incompetência e acefalia? Acaso sobrevivemos para ver o país recuar até onde? A sagração da ignorância?

Se é para isso que viemos, melhor ciar, andar de caranguejo e recomeçar do zero.