Role da sociedade desintegrada

Role da sociedade desintegrada

Paulo Rosenbaum

16 Janeiro 2014 | 01h10

Movimento social adere a ‘rolezinhos’ e shoppings bloqueiam página na web

“Rolezinho” já mereceria entrar nos dicionários como “recente forma de recreação da nova classe média”. Mas invadir shoppings para zoar? E isso é lá lazer? Pois é curioso que ninguém tenha reparado que, com menos organização e em grupos menores, é o que fazem milhões, há décadas.

A imprensa internacional se adiantou e já os etiquetou como “novos vândalos”. Muito cedo para diagnosticar. Esperemos para ver mais perto do início da Copa, quando começarem as infiltrações e a quebradeira. É provável que a emoção cresça, mas, ainda assim, não será o caso de considerar este um programa bizarro?

Se rolar violência estragará a festa. Exatamente como acabou desvirtuando o sentido das manifestações juninas.  Pena, era uma forma legítima de dizer que a sociedade não é só de quem vive nos centros. Deveria ser ponto pacífico que quem vive nas margens deveria poder usufruir das riquezas que ajuda a produzir. Mas, ao mesmo tempo, chama a atenção o que escolheram para se divertir? Passear em lugares protegidos e desfilar nas calçadas do consumo! Agem por falta de opção ou puro mimetismo da sociedade consumista que criticam, invejam, e aspiram?

O hábito de frequentar shoppings e encastelar-se em lojas surgiu como uma alternativa para a falta de lazer. Algum que não estivesse exposto à violência. Violência que o Estado não mais controla.

Agora pensem na completa ironia desta situação. Há menos de duas décadas os jovens elegeram os shoppings centers para entretenimento. Era para escapar da violência que estaria assim confinada em lugares distantes, na periferia. Mas, com o desejo da periferia de fazer visitas coletivas, exatamente nos bunkers escolhidos pela velha classe media para se esconder, precipitaram-se alguns fenômenos:

Quem frequentava o lugar, outrora aparentemente seguro, agora está amedrontado porque perdeu um dos poucos referenciais de proteção que tinha.  Por sua vez a outra classe media, a nova, que passou a organizar “rolezinhos”,  assume que sempre foi esse foi o sonho. Identifica enfim o que se chama a “boa vida”.

Ora, não deveria ser nem uma coisa nem outra. Se o problema é tão velho quanto o mundo, isso não significa que haja qualquer sentido neste apartamento de convívio. A falta de integração não atenua, aumenta a espiral de preconceito e violência.  

O estranho não é só o suposto preconceito de classe já que as duas classes medias se aproximam cada vez mais em todos os quesitos, de roupa à aparência. Tampouco é razoável justificar a divisão que criamos em função das assimetrias sociais. O esquisito mesmo é porque estamos tão conformados e aceitando com naturalidade que cidadãos devam permanecer condenados a viver em suas respectivas trincheiras.