Rosa

Rosa

Paulo Rosenbaum

02 Outubro 2013 | 14h22

 

 

Rosa & Rosa

 

Acabo de assistir “Rosa” com a atriz Debora Olivieri interpretando o texto de Martin Sherman. Notável interpretação da atriz que, com pleno domínio do personagem, sustenta um monólogo que, sem que o espectador note, atravessa quase um século. Bom humor e tiradas sarcásticas do autor suavizam o peso de uma narrativa densa, sem a reduzir. Mas quem rouba o enredo são os suspiros, a respiração e a presença cênica da atriz. Sua apropriação das características judaicas – inspiradas em sua avó — não escorregam nem ao estereótipo nem ao lugar comum. Alternando auto ironia, sincera decepção e euforia, a peça flui em sua voz, sempre intercalada sob o elemento simbólico de uma sede disciplinada. O resultado nos obriga à inevitável simpatia e cumplicidade. Na  imobilidade da poltrona, a cadencia poética do relato transforma-se numa vida que incorpora a atriz, e não ao contrário. Num contexto dramático repleto de provocações – as vezes excessivamente simplificadoras — que colocam religiosos, Israel e os conflitos do oriente médio na berlinda, Débora não sobe no palanque político e consegue separar identidade étnica do fervor tribalista. Seu principal mérito? Expressar sarcasmo e absurdo como dúvidas permanentes que acompanham a trajetória humana. A perplexidade que nos faz oscilar entre transcendência e imanência. O Rabino e filósofo Menachem Mendel Schnersshon certa vez disse que o holocausto deu aos homens o direito de arguir o Criador: Olivieri entendeu a mensagem, suas perguntas não cessam.