Rumo aos semelhantes

Rumo aos semelhantes

Paulo Rosenbaum

17 de junho de 2020 | 19h23

Continuando a coleta de diferentes vozes e disciplinas para tentar compreender melhor a pandemia de Sars-Cov2 que impactou o mundo, o Blog Conto de Notícia entrevistou o Dr. Francis Mourão, médico psiquiatra e homeopata, idealizador e coordenador da Campanha Homeopatia na Covid-19, ligado à Escola Médica de Homeopatia de Curitiba e apoiado pela AMHB, a Associação Médica Homeopática Brasileira. Historicamente os homeopatas sempre se mobilizaram no Brasil e pelo mundo para dar suas contribuições à medicina, à saúde pública e à sociedade. Entre as ações históricas mais relevantes podemos citar o decisivo engajamento na campanha abolicionista, a criação dos primeiros ambulatórios médicos gratuitos no século XIX, e o empenho constante em ajudar a população durante epidemias. Recentemente, o Conselho Nacional de Saúde recomendou o uso de medicamentos homeopáticos como tratamento complementar durante a atual crise sanitária.

Blog – Poderia nos contar como surgiu a sua ideia da Campanha atual? O que espera alcançar com a mobilização?
FM- A Escola de Homeopatia de Curitiba vinha se organizando para poder ampliar o seu ambulatório, disponibilizando atendimentos para pessoas que pudessem vir a ter sintomas da Covid. No inicio do mês de abril, a EHC realizou um fórum onde procurou revisar todas as artigos homeopáticos publicados até aquele momento sobre tratamentos para a Covid, assim como os trabalhos brasileiros sobre possíveis remédios do “gênio epidêmico” – medicação que mais se aproxima às principais manifestações clinicas da doença. Como conclusão do fórum ficou claro que seria difícil encontrarmos um único medicamento homeopático que pudesse ser eficiente tanto na prevenção como no tratamento da Covid e que, na medida do possível, deveríamos promover o atendimento aos pacientes de forma individualizada. A expectativa com a Campanha Homeopatia Na Covid é de poder oferecer à população brasileira um atendimento médico homeopático ambulatorial, individualizado, a distância e gratuito, de forma que a comunidade homeopática possa contribuir com tudo o que as autoridades sanitárias e instituições médicas estão fazendo para minimizar os efeitos na saúde causados pela pandemia.

Blog- No que, por exemplo, a homeopatia pode contribuir para atuar, especialmente no campo da profilaxia?
FM- A homeopatia é um sistema médico que visa estimular o organismo a reagir para encontrar um ponto de maior equilíbrio no estado de saúde, assim, a medicação homeopática é bastante útil em todos os momentos de perda ou risco à saúde, ajudando a restabelecer a homeostase orgânica.

Blog – Aliás, no logo da Campanha já é possível ler que o objetivo é atuar no sentido de promoção da saúde. Pode comentar?
FM- Quando um homeopata fala em manter o estado de saúde, ele não está falando somente de ausência de doenças – diagnósticos clínicos, ou de um perfeito funcionamento dos órgãos, numa visão puramente orgânica. Ela fala de um conjunto de fatores que fazem parte da vida de cada indivíduo. Ele fala de fatores bio-psiquico-sócio-espiritual, ou seja, do corpo, do campo mental, do ambiente relacional e da capacidade transcendente do indivíduo, da sua esperança, das suas crenças, dos seus objetivos e sobre as estratégias que esta pessoa utiliza para viver tudo que faz sentido em sua trajetória existencial. Então, a Campanha Homeopatia Na Covid visa colaborar, contribuir para o restabelecimento da serenidade que uma situação como a desencadeada pela pandemia Covid19 causa, ao evidenciar nossas fragilidades, ao mudar nosso modelo econômico, ao limitar nossos deslocamentos e relacionamentos presenciais, ao nos obrigar a conviver com nossa intimidade. O medicamento homeopático pode proporcionar isso porque ele visa estimular o corpo a reencontrar seu ponto de equilíbrio, diferente de uma medicação tipo analgésico que também estimula o equilíbrio ao neutralizar a dor, mas somente a dor. Na visão homeopática, para se manter no estado de saúde é necessário que todo o conjunto de fatores relacionados à vida estejam funcionando de forma harmônica, como numa orquestra sinfônica.

Blog-  Como as pessoas devem fazer para acessar a plataforma e obter mais informações?
FM- Tem sido muito lindo observar a disponibilidade solidária da comunidade homeopática, médica e outras especialidades como farmacêuticos, odontólogos e veterinários, neste momento de distúrbio mundial causa pelo Covid 19 e direcionado especificamente à espécie humana. Conseguimos nos reunir num número significativo de profissionais disposto a atuar no atendimento de pessoas com suspeita ou infectados pelo Covid e estas pessoas podem ter acesso a este serviço, coordenado pelo Associação Médica Homeopática Brasileira – AMHB através da página na internet – www.homeopatianacovid.com.br. Ali a pessoa encontra campos para fazer contato com a coordenação da Campanha Homeopatia Na Covid, descrevendo sua necessidade e sintomas. Este pedido de ajuda será direcionado a um dos médicos voluntários, preferencialmente da região onde reside a pessoa que está buscando ajuda. O médico fará contato com o paciente para complementar a história clínica e elaborar uma receita de um medicamento homeopático que possa ajudar aquela pessoa. Cabe salientar que o tratamento homeopático é individual, ou seja, o medicamento prescrito é exclusivo para aquela pessoa.

Blog- O acolhimento e a solidariedade, trazidos por uma boa relação médico-paciente, já são elementos que podem influir favoravelmente na recuperação dos pacientes?
FM- Você fala em acolhimento e solidariedade, que são atitudes muito curativas. Ao nos sentirmos acolhidos, amparados, recebemos do outro seu estímulo, sua energia, sua proteção, e isso nos ajuda a continuar lutando pela vida. Ao percebermos a solidariedade alheia direcionada a nós, nos sentimos valorizados, vivenciamos o respeito do outro para nossas dificuldades e limitações, isso também nos empurra para continuarmos lutando por uma vida melhor. Neste momento em que o sofrimento, o medo, a insegurança por estarmos “lutando” contra algo invisível, que se manifesta clinicamente com tanta diversidade, a ação acolhedora e solidária de qualquer agente da saúde é de extremo valor. Por este motivo, nós, homeopatas, nos sentimos habilitados para colaborar e ajudar a população brasileira diante deste imenso e concreto risco à nossa vida.

Blog -A pandemia é uma situação em que a tecnologia científica pode mais uma vez ser combinada com uma abordagem mais empática e humanística da medicina?
FM-Se olharmos na história da humanidade, vamos ver que a atenção à dor, à doença surge da necessidade de minimizar o sofrimento próprio e do outro com quem temos laços afetivos. Ao longo do tempo e diante a nossa tendência de sistematizar e “mecanizar” nossa vida, a medicina técnica se afastou do modelo do médico de “cabeceira”, dando lugares a máquinas e laboratórios que determinam o nome da nossa doença e esta doença passa a ser tratada como algo externo que nos invade, quando, na verdade, apesar do vírus ser esse algo externo que nos invade, aprendemos nos primeiros anos do curso de medicina que a doença causada por um invasor somente acontecerá que houver uma predisposição orgânica, na linguagem popular, uma “baixa da imunidade” e essa baixa da imunidade é resultante de inúmeros fatores, como por exemplo, o nosso nível de estresse.
Neste momento da pandemia Covid 19, onde o conhecimento tecnológico médico está se mostrando limitado e exigindo tempo para encontrar soluções, o recurso mais simples e extremamente eficiente, é a empatia associada à uma ação  humanitária: qualquer pessoa pode utilizar e doar. A pandemia Covid 19 está ressuscitando nossa capacidade solidária e  a vida em coletividade, onde um precisa cuidar do outro. Fazendo uma analogia, se estivéssemos numa guerra, como nas muitas que já produzimos, a pessoa ao sair do seu “bunker” coloca em risco somente a sua vida – hoje, ao sairmos do nosso distanciamento social, colocamos em risco todos os outros com quem viermos a ter contato. Desta forma, passamos a ter uma responsabilidade social pela manutenção da vida humana diante de uma ameaça real causada pelo Covid 19.

Blog – Uma última pergunta, como você sente pessoalmente a ameaça da moléstia ? Quais os conselhos que você dá a si mesmo para amenizar a situação e o que espera de mudanças nas relações humanas depois que a pandemia se arrefecer? O tão mencionado “novo normal” não seria apenas uma expectativa, uma forma defensiva da humanidade em lidar com as perdas inevitáveis desta fase?

FM- Sabemos que a predisposição ao adoecimento passa pelos nossos receios e medos, o que nos deixa mais vulneráveis. Porém não podemos ignorar que estamos lidando com a possibilidade real da transmissão e contágio. O que se tem de mais concreto em relação ao Covid 19 é que as medidas sanitárias preconizadas representam as ferramentas mais efetivas até o momento, diante da falta de outros recursos, em especial os medicamentosos.
Os conselhos que tenho dado a mim mesmo e aos meus pacientes é de manterem o distanciamento social, usar a máscara, higienizar as mãos, tomar água frequentemente e alimentar-se adequadamente.
Sobre as mudanças nas relações humanas, estamos aprendendo que é possível trabalhar à distancia, que é possível diminuir a poluição diminuindo a circulação de pessoas e a minha expectativa é que ampliemos, de forma mais consistente, nossa capacidade de sermos solidários uns com os outros e com o ambiente onde vivemos.
O “novo normal” pode estar representando uma forma de lidar com as perdas causadas pela pandemia – sempre buscamos o normal, a estabilidade – temos dificuldades para administrar mudanças e instabilidades – a vida é dinâmica, ou seja, muda constantemente, mas nós a vemos, quase sempre, apenas como uma sucessão de dias repetitivos.

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