Saciedade e Fraternidade

Saciedade e Fraternidade

Paulo Rosenbaum

25 Junho 2013 | 01h01

 

Manifestantes voltam às ruas de São Paulo na manhã desta terça-feira, 25

Presidente propôs plebiscito que autorize convocação de uma Constituinte para fazer reforma política

 

Seria possível coletar muita informação dos cartazes, faixas e slogans destes últimos dez dias. Poderíamos até fundi-las com as do maio de 1968 em Paris. Mas pergunto se será possível ao Estado atender tantos pedidos simultâneos? Se não fizemos em 500 anos, vão providenciar para a semana? Não seria, talvez, exigir demais? Não que o Estado tenha se comportado bem com o cidadão, pelo contrário. O Bullying de Estado comprova o quanto o Poder contemporâneo massacra seus súditos.

Há algum tempo o filósofo Edgard Morin indagou se na luta por transformações não nos faltaria um terceiro elemento? Aquele que complementa liberdade e igualdade, para além da liberdade e da igualdade. Um elo vital que caracterizaria uma outra perspectiva existencial. Segundo ele, nem antes nem depois nem nunca foi colocado em pauta!

Os grupos que foram às ruas pelo País saíram inicialmente com pauta única, mono específica: redução dos valores das passagens. Avaliando o eco que o MPL conquistou, ampliou as ordens (não importa que o MPL não tenha autorizado a participação de outras pautas, a sociedade é, para usar o jargão, horizontal e autonômica, portanto, todos devem ter o mesmo direito de reivindicar) desta vez muito mais abrangentes e abstratas. Os sonhos foram colocados nas demandas. Aspirações românticas. Desejos breves. Necessidades imediatas. Coisas inadiáveis. Tudo para ontem, para já, numa pauta insaciável.

O que se pede é muito mais que troca de regime. A demanda foi quase que comandada por uma inusitada rede de significados. É como se o consumo e a energia motriz acumulada por tantos anos de paralisia, sedentarismo e vida virtual tivessem jorrado para fora das cabeças e dos corpos ao mesmo tempo. Agora, passado o espasmo, já é outra coisa. Racionalizada e analisada a coisa toda não só perde um pouco de graça, esvazia-se o sentido. O charme da bagunça e da rebelião era exatamente guiar-se pela intuição, imaturidade, matizado por certa irracionalidade e leveza. Anarquismo ameno, bem humorado, que não podia ser reduzido a um gesto político muito menos ser interpretado à luz das ciências sociais. A concretude aspirada – diminuir as mazelas reais – era menos importante do que só se expressar. Testemunhe você mesmo, muitos nem imaginam o que é PEC 37 ou Ato Médico.

A vida adota um ritmo desconcertante, que vêm atropelando a academia, analistas e institutos de pesquisa. O que vimos foi parecido com a escrita automática de Breton: muito, rápido e no ritmo inconsciente.

Um deslocamento drenado do mundo digital para as ruas que fique sem eixo, pode no final, ficar tentado a tocar fogo no circo. Só que os piromaníacos não podem esquecer da responsabilidade individual. A multidão não dissipa seus próprios rastros. Sem posicionamento mais claros, acaba atirando no próprio pé. Ninguém quer ser engolido pelo fogo alheio, a não ser no amor. Se é para ser Utopia que se mire bem mais alto.

O terceiro elemento ao qual se referia Morin é a fraternidade. Ela decidiria muitas coisas que os Estados contemporâneos têm se mostrado incapazes de contemplar. A ajuda mútua, a solidariedade e a delicadeza seriam, bons inícios. Vociferar contra o Estado é apenas o sintoma da fratura entre povo e poder. Falta acrescentar à agenda novas formas de educar que supere a mediocridade de “mais escolas”. Não significa nada “mais médicos” assim como “mais leis” pode nos dar a régua inútil, sem compasso. Ninguém sabe muito bem qual é, mas talvez possamos começar considerando uma proposta da hermenêutica que faz a proposição de que educação é educar-se. Educar-se é ter em mente que um Estado mãe joana e pai de todos nunca conseguiu, sozinho, suprir as demandas sociais. Só a liberdade individual pode conduzir a uma coletividade com mais justiça social.

Então o grosso do trabalho deveria ser na base da solidariedade, do envolvimento, de uma aproximação – e nunca de apartamento — entre todas as classes sociais. De uma ruptura cultural sem violência, sem escândalo e sem rasgar a constituição.

Exercitar-se em ver o outro como se não fosse objeto ou mero estorvo. Só porque ele não pertence a sua família, clã, ou movimento político?

A propagação multipolar e excêntrica do pavio aceso por pouco mais de 150 pessoas não pode nem deve simplesmente se desmanchar. Tampouco o conjunto de exigências pode ser lapidado conforme o desejo mágico de quem quer que só sua filosofia se imponha à diversidade de pessoas que querem se manifestar.

Todas têm pautas muito particulares, quase intermináveis, pouco conjugáveis. Observando os boatos e as redes paranóicas que se seguiram aos últimos dias – de golpe militar da extrema direita ao desembarque de comandos cubanos — nota-se melhor como o beco pode ser mais complicado que supõe nossa filosofia. A manipulação política do medo pode e será canalizada em muitas direções diferentes.

Não é o regime legal e constitucionalmente estabelecido que precisa renunciar. Ninguém, nem mesmo uma multidão municiada com causas justas, pode virar as regras do jogo sem o sacrifício da paz social. Se o partido governista realmente quiser dialogar precisa fazer muito mais do que acenar com boas intenções, reuniões de cúpula e pronunciamentos. Abdicar do desejo de hegemonia partidária é vital. Formatar uma coalização alinhada com objetivos comuns, sem base fretada, sem truques, sem couraça, sem trapaça. Para redução de dano da corrupção só mesmo diminuição da carga fiscal e descentralização dos impostos.

Quando alguém dá o pontapé o mundo roda diferente, e já não se é dono da energia que deu luz ao movimento.

Galileu estava certo, a esfera continua rolando.