Saiam da história e entrem no País

Saiam da história e entrem no País

Paulo Rosenbaum

19 de julho de 2019 | 16h07

O trágico pode ter uma dimensão digna e heroica.  Não foi o caso do proto ditador Getúlio Vargas que forjou para si o espetáculo de um saída sem honra. Outros seguiram seu exemplo em modalidades menos hemorrágicas. Nada é mais auto evidente do que os efeitos da egolatria no Poder. Como Aldous Huxley previu, a auto transcendência horizontal — aquela que se obtém através da fama e aclamação de idólatras —  entorpece. E, antes de se dar conta, agentes do poder são tomados pela sensação de triunfo que ricocheteia em seus miolos e conforme Millôr, faz “o fracasso lhe subir à cabeça”

A húbris não é inócua. A peste emocional contagia arredores e, por fim, conduz os homens ao maior delito dentre todos:  imaginar que podem sonhar pelos demais.

Pois foi esta usurpação da imaginação alheia que nos tomou de assalto. Aqueles que poderiam minimizar o sofrimento de milhões, a maioria amordaçada, a título de dar-lhes voz, agora organizam fanfarras narcisistas.

Depois do último pleito eleitoral esperava-se substituição do padrão do varejo populista. Algo que tem sido feito em câmera lenta, numa velocidade que subdimensiona a necessidade. Subestima-la é ignorar a mensagem da última deseleição. O contraste é que a opinião pública, esta crônica órfã de cúmplices, tem pressa. As ruas urgem. Livrem-nos da ameaça de apoio à ditaduras, do acobertamento institucional à pilhagem, e que tal sanear o festival vitalício de baixa cultura. Exigimos as reformas do Estado,  segurança e bem estar mínimos.

E por acaso a democracia encontrou mecanismos e salvaguardas para controlar aqueles que a utilizam para sabota-la? Se encontrou, não ajustou o timing. Quem abraça milhões não incorpora ninguém. O sujeito irrepetível nunca é relevante para a psicologia de massas. Mas este subproduto de políticas públicas populistas acaba sendo o fator decisivo nas eleições. Parece insolúvel?

Moléstias inexoráveis infelizmente existem, mas como no raciocínio  preventivista, há sempre o que fazer quando de se trata de patologias evitáveis. Destarte, para a corregedoria do politicamente correto deste nosso anacrônico establishment, tudo isso acima não é prioridade. A agenda das urgências encontra-se nas mãos de ilusionistas cujo coelho desaparece assim que se alcança a cartola.

A imperícia com que os três Poderes tem tratado as questões da República evidencia: não é um caso isolado. Punidos ou impunes trata-se de uma verdadeira epidemia do mal feito. Sob a ausência de lideranças críveis e vácuos no Poder, as mídias corporativas tentam substituir o jornalismo independente. Insuflam o desprezo que as instituições tem pela opinião pública.  Depois de mais de uma década de sistemático sequestro do erário para projetos totalitários a América Latina flutua. São 10 trilhões senhores. O curioso é que a República esteja em extinção exatamente sob o pretexto da defesa do Estado Democrático de Direito.

Balsas de palha só detectam naufrágios tarde demais. O tempo nunca perdoou a inércia e não há indícios de que mudará sua natureza. Nem mesmo a laicidade do Estado deveria impedir as missões sagradas: saiam da história e entrem no País.

 

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