Seis milhões – Dia das vítimas do holocausto

Seis milhões – Dia das vítimas do holocausto

Paulo Rosenbaum

27 Janeiro 2018 | 21h16

PUBLICADO NA COLETÂNEA “A PELE QUE NOS DIVIDE”, Quixote-Dô, Belo Horizonte 2018

SEIS MILHÕES

I

Os seis estão bem aqui.

posso senti-los? sob meus pés,

regulares, como todas as descidas,

rítmicos como gelos.

intensos como arestas

No declive de gênero fantasiados de corporações ?nos trens improvisados,

como máquinas de extração enquanto metrificavam judeus

a IBM e a Krupp? acendiam os fornos da despensa

Do trem, digo? não era noite ou fumaça

e de todos os dias,

o carrasco detinha ?os trilhos da proficiência

Não vi campos,?nem sinais de gritos, ou angústia das vítimas

senti cada parada ,? cada pequena que viveu nas cavernas preservadas

nas coleções intactas? ou na predação canônica

A seleção naturalmente objetivada

pela negação da naturalidade.

Não me interessa que não vi, (nem quem não viu),

Nem quem soprou seu silêncio para o vapor da constância,

de quem preferiu as mãos? que alimentam quem dizima.

Só saberemos quando vivermos nos esconderijos desacreditados

na sonolência de nossos dedos ou nas qualidades extintas,

como nós,

extintos.

 

Não importa (nunca importou) o cultivo,

mas a produção,

o apreço por resultados,

o rastreamento de objetos

que com vida ou sem melancólica será,

 

Aí temos o protocolo superado a experiência romântica

sustentada na escala

Enquanto o mundo pensa em paz,

Na calma capturada do carvão dos ossos

A travessia que importa

Usa força do solo como tingimento,

E, como furos em flautas ?alternam sons com acendimento

de vela perfiladas,

nas presenças sem sequência.?na curva do mundo

Na atenuação final de vidas em estudo

Porque nossos olhos retêm ?o não expresso

E, como trens, invadimos o mundo com troncos negros

Na matéria que se impõe como referendo do espírito,

Agulham nossos dias com palheiros e, à latitude da ilusão.

Aterram o assombramento

 

Tudo, tudo mesmo ?é para que essa perplexidade

gere totens ?e olhos sem braços

nos alcancem? em noite de cristais, pogroms ou vidraças

nos nomes que esfacelem a realidade,

que, sem chances, observa ?a violência do descuido

 

Mas a noite, sim, anônima

Impõe a presença

Recontada ao infinito

Mesmo que cada grão do carbono esgotado

Entupa de maturidade as nações

 

Achamos que, ?do tabuleiro de onde estiver, deves absorver tuas regras.

 

II

 

Para infortúnio geral

Somos um passado atento

Seis milhões nas curvas

Assistidos com a brutalidade da demora

O esquecimento do mundo

A carga excessiva

Que impressiona apenas?os tolhidos da cena

(Em Stuttgart testemunham-se monumentos nos quais as vítimas são eles)

Mesmo à distância do meio do atlântico

Estancaremos perto do nada

 

Só faz 70 anos

Os campos estavam nos libertando da vida

Enquanto a eugenia dos doutores ?do partido

Subiam de incenso na mente do povo do silêncio

Ah, estamos em comunhão

Mas, para registros futuros jamais

o barômetro do céu agirá aqui-agora

como o esmagamento do ali-afora.

 

STUTTGART–PARIS JUNHO.2007