Sem nada, concluo tudo.

Sem nada, concluo tudo.

Paulo Rosenbaum

06 Março 2015 | 15h03

erros

Não sou poupado. Uma hora é um enxame de notícias, depois, o catálogo de malfeitorias. O atraso, legisladores sem talento. Mas mesmo quando todas as notícias beiram o desastre, seguimos, puro instinto. E para suportar o que logo mais nos está reservado? Aprenderemos a agir estoicamente sem precisar recorrer ao cinismo? O abismo também é uma forma de leitura do mundo. Não basta subsistir. A vida criativa é uma façanha. Assim como a frescura, a paura, a doçura. Não seria o caso de resignificar? Mas como? A rotina é essa. Mesmas quadras, mesmos quadriláteros, a mesmíssima calçada. Como? Se existimos entrincheirados entre pouco quarteirões. A linguagem do consentimento é nos fazer de espectadores, enquanto toda ação come solta. Nada está por vir. O pior de tudo é o agora compactado e postergado. A nostalgia não desloca futuros. Observando bem, a linguagem nos tranca no que deve ser dito. No que a pressão nos faz ajoelhar. Juramos sobre desperdícios. A língua que escolhemos obedecer trava antes do ponto de exclamação! O politicamente correto é isso. Ilusão de controle. E quem ainda não intuiu? O controle está morto. Vivemos às custas de pequenos trechos. Numa faixa, numa raia, num percurso acidental e unidirecional. Perdemos o que era múltiplo e seu sentido. Eis a tragédia. Mas isso não assumimos. Ficamos a espera da prescrição que nunca chegou. Das condições ideais.  Que tardam porque jamais existiram. Acabamos regidos pela inépcia. O fim de todo receituário político, social, cultural se deve à extinção de tinta legível. As  letras — único elemento digno de compartilhamento — sumiram de cena, assim como todo consenso de finalidade. Selfies são evidências de um tipo de fim.  A vida significativa, se existe, está num outro gênero de exclusividade. No pessoal. No mito unívoco que é cada um. Sem valores comuns o que afinal é o Ocidente? Ao fingir que podemos dividir tudo, não somos mais nada. Se democracia e capitalismo são incompatíveis, o que nos resta? A ideologia que escraviza a realidade até se ajeitar na camisa de força? Ou apenas um punhado de professores que tutelam cabeças cansadas? É necessário aceitar que o nada é uma perspectiva. Para além de refúgio é uma grande possibilidade. Nós, acasos disfarçados de destino. A imanencia adquiriu pretensões transcendentes. A Grande Beleza (para além do filme obrigatório de Paolo Sorrentino) nos coloca diante da crueza onde sagrado e mundano se desintegram, ali é que um Céu merece ser redescoberto. Logo se descobre que é puro despiste. Só o momento nos dispensa paz. A imensa maresia nos desfaz. E, sem nada, concluo tudo.