Sentido para a Ciência

Paulo Rosenbaum

25 de abril de 2021 | 12h55

Sentido para a Ciência*

“O avanço nas ciências matemáticas naturais exige contato com as ciências humanas, para expiar o absolutismo do progresso científico-tecnológico e a ilusão de uma história mediada por computador.”

(Ernildo Stein)

A ciência não é imparcial.

Essa frase, aparentemente sem contexto, abriria a porta, mas não abriria caminho, para intermináveis ​​especulações sobre a longa história da tentativa humana de construir consensos lógicos. No entanto, esta frase pode tomar um rumo inesperado. Por exemplo, para a hermenêutica filosófica, absolutamente nada é imparcial. Nenhum ser humano é uma tabula rasa , nenhuma ação humana é isenta de preconceitos. Se quiseram a analogia com a famosa frase de John Donne “nenhuma homem é uma ilha”, ilha de significados. Por que a pesquisa científica e aqueles que a executam receberiam esta majestática isenção? Ainda existem preconceitos, mais ou menos domados. Estão sempre presentes, pois, afinal, são as nossas ideias. A pesquisa certamente visa a descoberta de coisas novas, mas sempre em um quadro de debate contínuo com tradições, culturas e experiências passadas.

Por outro lado, é verdade que a ciência deve estar lúcida e contentar-se em analisar – no pacífico ambiente dos estudos – o conteúdo das reflexões produzidas e publicadas. Já o historiador da medicina Henry Sigerist advertiu que nenhum cientista pode ser totalmente livre, isto é, livre para criar e livre para pensar, a menos que lhe sejam asseguradas – como condição prévia – as condições materiais para sobreviver. Caso contrário, alertou, dependerá sempre de uma determinada instituição para financiar seus projetos e as instituições sempre imporão seus interesses particulares às atividades puramente científicas. Em suma, esse compromisso reduziria não só a criatividade, mas também a capacidade de gerar avanços de esclarecimentos. O cientista brasileiro César Lattes chocava seus alunos aconselhando-os a procurar parceiros ricos se desejassem fazer carreira científica no Brasil (ou em qualquer outro país não industrializado). A alternativa é sair em busca de citações para aumentar os subsídios governamentais.

Esta introdução é apenas para dizer que a chamada “zona cinzenta da ciência” tem essa cor só porque aqueles que dela fazem parte ainda não compreenderam que a única ajuda possível para sustentar uma pesquisa não hegemônica, a única possibilidade de passar pelos operadores que, de certa forma, impulsionam — e a controlam através do intelectuopólio — a ciência nesta ou naquela direção, é viabilizar uma vida acadêmico-institucional, com o apoio maciço e decisivo do Estado.

Isso pode soar como um discurso anti-neoliberal, (o que não é) mas a questão é mais profunda do que meras autodefinições políticas e econômicas. A única e real chance de que haja uma competição mais razoável dentro das desigualdades inerentes aos interesses prevalecentes entre as teorias rivais é que quanto menos bem estabelecido, menos bem organizado, em qualquer caso, o mais fraco, pode buscar recursos em outro lugar para escapar a atitude predatória do mercado.

Como os grupos farmacêuticos privados não podem ser os eleitos para arrecadar (fornecer) apoio financeiro, o Estado é a única instância política legítima a ser procurada. Por outro lado só estados ditatoriais e autocráticos costumam adotar tal política, pois controlam a competição com o livre mercado capitalista.

O Estado e suas instituições de fomento são aqueles que podem prover o que se deseja na pesquisa. Talvez o novo por si só não seja o certo para o mercado. Talvez o novo por si só não otimize a produtividade. Ou seja, é preciso respeitar as motivações do cientista ou do pesquisador.  A crise das vacinas e a guerra de narrativas sobre a forma mais segura de abordar o vírus nesta pandemia explicitou tudo isso da forma mais constrangedora possível.

Gaston Bachelard mostrou que a ciência e a filosofia certa vez já falaram a mesma linguagem. Mas isso também se aplica à ciência e ao dinheiro, especialmente quando os ganhos financeiros entram na equação? Não são só os conflitos de interesse que deveriam ser denunciados, mas as pesquisas deveriam vir com um “ethos”, ou seja, a resposta às perguntas “o que estamos pesquisando?” e “para quem estamos pesquisando?”. Tarja que deveria ser adotada na agenda das pesquisas como uma emenda pétrea, a quaisquer estatutos de pesquisa modernos.

No entanto, as reflexões devem ser direcionadas para outro foco. Se o Estado deseja, efetivamente, oferecer oportunidade a técnicas e procedimentos não hegemônicos, deve apoiar investimentos que os viabilizem. Deve motivar os pesquisadores a desenvolver modelos novos e criativos que inspirarão projetos de pesquisa que dialogarão com a academia sem distorcer suas epistemologias particulares. Todos os itens acima, obviamente, se relacionam diretamente a todos as formas de atuação médica que oferecem os chamados medicamentos integrativos. Sem um acordo como descrito acima, nem a homeopatia nem qualquer outra forma de medicina integrativa poderá esperar por programas de pesquisa sérios, muito menos ingressar nas universidades e no mundo acadêmico, ambos requisitos essenciais para sua legitimação científica.

Embora redundante, é necessário repetir mais uma vez que a pesquisas nestas áreas não podem estar sujeita a padrões que distorcem seus fundamentos. Especialmente no caso da investigação clínica, visto que a pesquisa básica apresenta uma área mais ampla de sobreposição com as ciências exatas. No entanto, esses estudos só fazem sentido se aumentarem o progresso da ciência. Caso contrário, correm o risco de se perder em evidências duvidosas. O estatuto de validação, tão desejado pelas Medicinas Integrativas, talvez possa ser encontrado em outro idioma. Aquele que não pertence exclusivamente às ciências naturais. Aquele que adotará procedimentos interpretativos compreensivos, típicos das ciências humanas.

Chegou-se a um consenso de que a pesquisa deve ser realizada, seja ela dentro das áreas integrativas ou não, pessoal, prática ou institucional. Somente este impulso transformará outras formas de compreender o organismo, seu adoecimento e cura em uma tecnologia viável. E a pesquisa demanda apoio institucional.

Se nosso século é hermenêutico, dialogar com a vida é fazer com que as tradições voltem a falar.

Acreditamos que precisamos fazer isso.

É inadiável.

*Publicado originalmente no livro “Novíssima Medicina” (Editora Organon, 2003) e como editorial na revista Cultura Homeopática

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