Sharon: conquistador sem paz

Sharon: conquistador sem paz

Paulo Rosenbaum

13 de janeiro de 2014 | 14h05

Antes de enterro, Israel homenageia Ariel Sharon em funeral de Estado

 Salvo raras exceções, a vida e a morte de Ariel Sharon foi estampada na mídia mundial sob a velha discussão simplória e maniqueísta. O julgamento póstumo de uma liderança polêmica sempre tenta matematizar a índole do sujeito para apresentar a fatura estanque junto ao veredito. Seria ele gênio militar ou vilão? Estadista patriota ou traidor de colonos, quando devolveu a faixa de Gaza aos palestinos? Muito provavelmente Sharon era uma mistura destes vários elementos contraditórios que caracterizariam sua vida e história pessoal. Exímio estrategista e de lendária bravura, era sobretudo um pragmático. Provocador, enfrentou fúrias de fanáticos, atravessou o inferno astral por seu envolvimento passivo nos massacres de Sabra e Chatila, além dos desafios externos (como as  ameaças de processos em Cortes Internacionais que pairavam sobre ele) com a mesma determinação com que se defendeu no plano interno quando formalmente acusado de omissão pela Suprema Corte de Israel.

Mas então cabe perguntar por que a tendência para apresenta-lo exclusivamente sob a legenda de carrasco? A vilania nunca é elementar, neste caso e em nenhum outro. Na verdade, condenar alguém à execração pública é uma forma de despistar o foco analítico e perder de vista o que está por trás do vício de informação.

O que explica o respeito que Ariel adquiriu dentro e fora de seu País, é que, diferentemente de maioria esmagadora das nações contemporâneas Israel ainda precisa  continuar a luta por seu direito de existir, e e é imperioso que isso seja incluído na balança dos julgamentos políticos.

Com ou sem ele, o barril de pólvora continua perigosamente ativo. Com Hamas, Hezbollah, salafistas, jihadistas, além dos braços varejistas do Irã na região, ninguém são pode prever uma bonança prolongada. O princípio terrorista destas organizações – tratados com condescendência especialmente pela mídia européia  — não é especulativo: em suas constituições vigora a cláusula pétrea que vota pelo fim do estado judaico.

Não é difícil prever que as ondas de antissemitismo — que mais uma vez se espalham pelo velho continente –  guardem uma relação direta com a demonização sistemática do Estado de Israel.  Uma vez que se tornou impossível continuar sendo racionalizada como preconceito de raça ou etnia a hostilidade contra judeus – como afirmou Jonathan Sacks em recente entrevista à revista Veja  – agora apresenta-se em sua novíssima face:  judeofóbicos tentam se legitimar ao identificar seu ódio à terra de Israel.

São contextos específicos que dificultam qualquer análise externa da situação real do país hebreu.  Sempre prefiro a paz e os humanistas às estratégias militares. Uma negociação radical com os realistas do Fatah pouparia vidas e sofrimento para todas as partes. Mas isso não autoriza ninguém a botar fé na autodestruição. Enaltecer o pacifismo ingênuo, numa região minada, pré radioativa e instável, funcionaria ao modo de imolação voluntária.

Na linha do que Amós Oz recentemente enunciou quando recebeu o prêmio Kafka de literatura, vamos, de uma vez por todas, abandonar a ingenuidade e assumir que o casamento acabou. E já que não deu certo que seja um Estado binacional “não mais um casamento, mas um divórcio justo”.

Impossível precisar se o misterioso coma prolongado do militar teve a ver com os rumos atuais de Israel, mas é certo que Sharon tenha ficado inquieto com um porvir, especialmente a aquisição máxima de um Estadista para um povo e que nunca esteve ao seu alcance: a conquista da paz!

Ele e outros ícones militares pregressos e atuais da terra santa permanecerão cultuados. Não porque foram santos ou líderes imaculados, mas porque as pessoas podem sentir o cenário:  não parece estar disponível uma saída pacifica à vista e a sobrevivência precede outras necessidades. Pelo menos não há vislumbre de trégua com adversários com demandas exóticas como aquelas que exigem que você morra antes de assinar acordos.


Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: