Silêncio dos órgaos

Paulo Rosenbaum

14 Dezembro 2016 | 09h09

Silencio dos órgãos

Paulo Rosenbaum

13 Dezembro 2016 | 00h40

Sob a proteção do rei James I, Willian Harvey descobriu em 1628 a circulação do sangue em seu clássico “De Motus Cordis”— algum tempo depois de Miguel Servetus, que, sem protetores, foi queimado vivo pela santa inquisição e não sobreviveu para gozar a fama — as cidades se reorganizaram e foram arquitetonicamente dispostas de acordo com a função que o coração exercia. O principal distribuidor de sangue para o organismo – mas não único pois sabemos da rede auxiliar chamada de glomus — inspirou as transformações nas urbes.

De um ponto central saiam as várias vias, as quais, por sua vez, estabeleciam conexões e interligações, tais quais os vasos sanguíneos. A arquitetura copiava a fisiologia, a arte incorporava a natureza. Assim, não é nova a relação entre mudanças culturais e as descobertas da ciência.

As inovações científicas sempre influenciaram como a Polis e o próprio Estado deveriam funcionar. O filósofo e epistemólogo, professor da Sorbonne e sucessor  de Gaston Bachelard, Georges Canguilhem, definiu saúde com seu famoso aforismo de que um estado aproximado de cura seria representado pelo “silencio dos órgãos”. Isso significa que, quando o organismo está relativamente saudável e em homeostasia os órgãos não gritam, não fazem alarde dos sintomas, são discretos e protagonizam, sem grandes esforços, aquilo que devem fazer para assegurar a manutenção da vida. Para existir, os seres vivos não devem nota-los em seu funcionamento.

A garantia deste processo tem como resultado um admirável trabalho harmônico entre os órgãos e sistemas de modo que eles se auto regulam, numa notável interdependência e impressionante autonomia. Nem sempre esta maravilhosa perfeição perdura e nem sempre a saúde se processa durante a estabilidade. Crises podem ser benéficas para corrigir uma disfunção ou evidenciar uma deficiência ou super eficiência.

Enquanto isso, outros órgãos podem ser obrigados a se desdobrar para corrigir o equívoco dos vizinhos que não estão cumprindo seus papéis. São obrigados a tamponar a má atuação alheia, de sorte que ao “regular o desvio de função de um sistema que não está indo bem” o conjunto de outros sistemas mudam, se reconfiguram sempre com a finalidade última de preservar a vida.

Há, neste sentido, uma inteligência vital e solidária que age autonomicamente e em função do todo. Não é raro que o drama envolva sacrifícios em prol da preservação da vida.

Como Edgar Morin explicou, a diferença entre máquinas e organismo vivo é que se um dos componentes da máquina falha, ela pifa, por sua vez, uma unidade vital pode sobreviver mesmo quando um de seus componentes falha. Pois está acontecendo, neste momento.

Quando ocorre uma dor desmesurada, o aparelho neurológico “desliga” o sistema, de forma a preservar o corpo do colapso completo: a morte. Se há um comprometimento infeccioso no pulmão como, por exemplo, o bacilo da tuberculose, o sistema imunológico, não podendo destrui-lo completamente, encapsula-o e calcifica-o, de modo que o bacilo pode até permanecer vivo, porém torna-se inofensivo. E, a não ser que a resistência caia a ponto de desmanchar a defesa e libera-lo para fazer o estrago nos organismos susceptíveis, as pessoas podem conviver com o agente infeccioso sem necessariamente ficarem enfermas.

Estas analogias serviriam para construir paralelos entre o funcionamento do Estado e o Organismo. A primeira delas é que não cabe ao Estado o papel de reitor onipotente. Mas tampouco se trata da ideia reducionista de encolher o Estado ao mínimo. Isso não mudaria seu status quo, pelo menos não a ponto de torna-lo minimamente eficiente caso respeitasse a função para o qual foi designado. Isso é, se não extrapolasse suas atribuições, se não impusesse leis artificiais e se não legislasse em causa própria. Mas, principalmente se não se comportasse como um órgão desgarrado do corpo, correndo o risco de se tornar um antígeno e precipitar a temida reação auto-imune, quando o organismo passa a estranhar seus próprios componentes.

O Estado tem sido recriminado e pode passar à condição de moléstia, porque, em oposição ao conceito de “silêncio dos órgãos”, tem feito muito barulho por nada. Pois desta atuação equívoca só podem brotar instituições com os mesmos hábitos e tendências. Estado e Instituições muito barulhentas tendem a impor seus perturbadores decibéis aos tímpanos da sociedade.

O Estado brasileiro em particular, voluntariamente desorganizado por gestões caóticas — não satisfeito em nos acordar de madrugada com sobressaltos, foi perdendo a noção de conjunto. Passou a considerar que pode prescindir do convívio harmônico entre os poderes. E sob o endogenismo autocentrado de cada um destes poderes, clausulas constitucionais vão sendo abolidas ou reinterpretadas, para, em estranhas concessões hermenêuticas, adapta-las às conveniências do instante. Soluções de varejo podem funcionar, provisoriamente, até que o próximo imbróglio sobrevenha.

O agravante é que essa atuação equivoca do sistema político partidário está sendo exercida com plena noção de seu significado. Exatamente porque o fisiologismo político acordou, e sabe que, numa perspectiva de funcionamento integrado e eficiente, teria sua hegemonia minada. Veria ameaçada a menina dos olhos dos governantes: a centralização dos tributos. Atualmente taxas públicas extorsivas com dividendos privados vingativos.

O Estado, unido em desfavor da sociedade, defende-se com unhas e dentes porque sabe que não resistiria à inspeção atenta da razão. Uma análise independente mitigaria seu alcance e reforçaria a ideia de que os distritos deveriam ser prioridade. Um exame crítico evidenciaria como o sistema político atual se tornou anacrônico e de que a solução, não sendo o Estado policial, estaria no combate à ignorância.

É exatamente esse o temor que domina o Estado escandaloso. Encapsulado, o medo é de que descubramos que ele é bem menos necessário do que faz supor. De que, assim como a vida, nenhum órgão pode prescindir dos demais sem infligir danos permanentes à vitalidade. Para que possamos respirar, o Estado vai precisar silenciar. Ou, calar a boca.