Silencio inconveniente

Paulo Rosenbaum

19 de fevereiro de 2015 | 12h41

Entre os guarda-chuvas e em meio as quadras das cidades sul americanas aconteceu algo nesta ensurdecida America Latina. Do meio dos confins do mundo e em meio ao populismo de arranque, uma massa atormentada, mas pacifica, retirou um pouco do poder da ditadura. “É pela democracia que queremos, não está que nos impõem” comentou um participante da longa marcha que terminou na icônica Plaza de Mayo. A mesma dos lamentos das mães que tiveram os filhos desaparecidos durante as ditaduras militares.  O “fiscal” Nisman foi velado não porque tinha algo a esconder. Foi morto porque tinha o que revelar e como comprovar sua revelação. Quantos destes juízes, promotores e defensores dos direitos estão hoje sob cárcere privado? A cena se repete em milhares de grotões perdidos.

Os áulicos imaginavam que os votos confeririam imunidade perene. Agora lutam para transformar a democracia numa modalidade muito particular de ditadura plebiscitaria. Para justificar os abusos contra as prerrogativas republicanas evocam frequentemente a justiça social. Mas qual justiça social sobrevive sem justiça individual?

Em meio ao brilho da chuva e à poeira decantada, o vapor da justiça subiu. Toda marcha do silencio é mais do que luto, e está para além de protesto. Trata-se de um grito em plena mutação. Um basta que não é pacifista, mas pacífico. Uma indignação que não quer mais reconhecer o Estado que usurpa direitos sem retribuir deveres. Essa foi a essência da marcha que recém varreu as principais cidades argentinas e algumas do mundo. Um paradoxo está foi ficando evidente em nossos dias. Há barbárie progressiva convivendo com cabeças que buscam amplitude cada vez maior. Há um choro unívoco que, aos poucos, conduz, por aproximações sucessivas, o mundo a um grau maior de consciência.

Estas elevações das consciências podem ser efêmeras, circunstancias, condenadas à nostalgia e à invisibilidade.

O que elas portam, contudo, é a força comum, uma salvaguarda indestrutível: o instinto humano por justiça.

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