Só as ruas esvaziam palácios

Só as ruas esvaziam palácios

Paulo Rosenbaum

30 Outubro 2015 | 10h11

RUAS_PALACIOS

A política, depois de percorrer um abismo sobrenatural, desceu ao inacreditável. É com ele que devemos nos acostumar. É um momento no qual toda análise escapa à objetividade. A leitura do quadro atual, saturada, alcançou um lugar comum: tudo é insuportavelmente igual e a contaminação indistinta. Todas as visões confluem à superfície. Principiante ou veterano, tanto faz, qualquer um que se debruce sobre a atmosfera do Brasil atual não consegue ir além dos relatos descritivos, ou das narrativas ideológicas maquiadas de investigação jornalística. E não se pode simplesmente condená-los. É preciso compreender que um quadro assim pediria um outro sistema de notação. Trata-se de um método ainda não inventado. Pois o panorama não é o de um caos comum. Experimentamos uma estranha falta de esperança. Aquela que extingue toda perspectiva, mas que subsiste em nossos corações e mentes. Apesar de toda pancadaria, sobra algum fragmento de credulidade. De que outro modo explicar a naturalidade com que aceitamos a situação depois de tudo que testemunhamos? Estaríamos anestesiados com a intensidade do implausível? A franca espoliação do País nos legou à desvitalização. De colapso em colapso, assistimos a desorganização. Anomia para a qual ninguém apontou solução. Temos que considerar com seriedade a hipótese de que pode não haver uma. As raras respostas se concentraram na saída da crise. E como sair de uma crise construída, que não pode ser alcançada sem a conivência de toda a sociedade? Só que reduzir o dolo a um passivo exclusivo do “outro”, nos coloca sob custódia de um juízo que ninguém domina. Viramos reféns da intolerancia e do maniqueísmo. E, principalmente, sofremos nas mãos de quem domina a ciência do marketing político. A regra do jogo foi erguida, vitalícia, para que ao marchar em falso, migremos sem sair do lugar. Uma educação foi forjada para obter gerações amorfas. Incapazes de sair sem incendiar algum patrimônio. Adestrados para avançar contra inimigos, sempre ao sabor da indicação de alvos pré selecionados. Ninguém por aqui carrega cartazes: “Nossa fome é de renda” nem “Onde está a infraestrutura?” Há muito tempo o sentimentalismo e a paixão se tornaram o padrão para as adesões políticas. A racionalidade,  a análise e a decência são para os que ainda aceitam o contrato social. Esse vale só para o mundo externo. O poder abusa. Usa o belo discurso para gerar uma lógica auto-referente. O resultado desta didática empírica é cunhar uma única moeda, uma única linguagem, num único objetivo: acumular matéria e prover todos os meios para obtê-la. Nas margens dos palácios dos três poderes, e, dentro deles, vigora a lógica do time, da corporação, do alinhamento automático. É bem mais do que um simples Cor X San, Fla-Flu ou Gre-Nal. Estamos submetidos a um regime de fidelidade mórbida. Ou seja, não importa o que aconteça com o País, não interessa a performance, tampouco a eficácia. E nem venha falar de ética. Por favor, não exiba os vídeos que certificam os crimes. Prefiro não ver. São montagens. É a sua interpretação dos fatos. Sua câmera tem lentes compradas. Isso mesmo, são pagas para distorcer a realidade. A realidade? Sou o único com a prerrogativa para classifica-la. Não estamos em Cuba ou Caracas. Estamos num lugar bem mais perigoso: no hiato despersonalizador. Onde oposição e situação combinaram um revezamento baseado na irresponsabilidade. A República é hoje um desmanche suburbano. Onde o poder emana do povo e será exercido à sua revelia. O Estado se virou contra a cidadania. O bom selvagem, convocado desde o Instituto, desceu das arvores para se vingar das elites, enquanto a burguesia arrependida ensaia seu último carnaval de rua. Quem apoia a violência como método, corta a própria carne para defender o opressor. E faz parte desse malabarismo ocultar os nomes impressos nos passaportes. Mágicos  suprapartidários e transnacionais. A adesão acrítica pode ser analisada pelo prisma da ausência de horizonte. Afinal, a inércia também é uma escolha, senão a principal. Na letargia, endossamos a paralisia. Só as ruas esvaziam palácios, porque, as vezes, a única forma de se libertar da insanidade é a convulsão.