Sobre a resistência da laje

Paulo Rosenbaum

13 Janeiro 2016 | 13h27

Sobre a resistência da laje

Leio colunistas que torcem a pena para encaixar suas teses sobre o problema da militância deste governo contra a política de outras nações. Por mais objeções que alguém tenha à política interna de Israel fica patente a particular má vontade com que este País é tratado por este governo. Claro que nada disso indulta a reatividade imatura da chancelaria israelense, a qual, sempre que pode, morde a isca. Mesmo porque, quando se trata de jogo de cena é impossível competir com o partido.

E aqui o simbolismo digno de apreciação: o que os países livres representam para a perspectiva lulopetista de mundo?

É equivocado nomear a atual gestão de antissemita: hábeis e múltiplos dissimuladores se escondem hoje sob o manto do antissionismo de ocasião. Para um governo que prefere ditaduras de corte pseudo marxista e autocracia de aiatolás a uma democracia estável, ninguém pode se espantar quando indisposições artificiais com outros países são criadas por supostas diferenças ideológicas.

O problema central do lulopetismo e de seus apoiadores portanto, é com a liberdade de expressão. E não se pode mais considerar só oportunista o endosso tácito dos intelectuais orgânicos do partido a esta e outras celeumas menores, quase todas destituídas de relevância.

O fato é que as manobras diversionistas protagonizadas pela atual gestão federal para sair das cordas atingiram proporções esotéricas. Precisamos ser intransigentes quando se trata de tentativas de adulterar as regras em pleno andamento da partida. Pois é exatamente isso que o Partido, simulando legalidade, vem fazendo não só com os dispositivos constitucionais, mas principalmente com o abuso com que lida com os recursos públicos. Penaliza o contribuinte para cooptar o apoio cada vez mais caro e escasso. Há quem finja não entender que as coisas caminham assim. O abuso e a manipulação com que o executivo vem operando para inabilitar, limitar, de qualquer forma engessar os outros poderes, ferem muito mais do que as normas operativas com o qual a República conta para não ser arrastada a um novo ciclo autocrático.

É preciso eliminar os meios termos quando se deseja esclarecer aos cidadãos o que se passa numa República temerária. Neste sentido, é que parece ser vital explicitar a fusão entre o sistema e todas as forças que o apoiam, contra os interesses da sociedade civil. Só assim estaremos preparados para que os sinais não sejam tomados como carapaças e as tergiversações de praxe, como carapuças.

Cabe recapitular. A democracia não é apenas um conjunto de normas fixas, baseadas nas escolhas que sufragam nomes em eleições periódicas e sucessivas. O jogo democrático envolve regulações suplementares, sutis, baseadas no bem comum, direitos e deveres das minorias, mediados por acordos intersubjetivos. A transgressão desses dispositivos, coincide com a linha demarcatória entre Estado democrático de direito e outros regimes autoritários de governo.

É sob essa sobrevida selvagem diária, que este governo, desaprovado pela maior parte da sociedade, finge ignorar o próprio estrangulamento.

As pessoas apenas se enganam quanto a provável origem do desmantelamento. Como toda jovem democracia que não se mobilizou preventivamente contra os agentes da perpetuação, a eficaz blindagem que construíram já atingiu algum grau de irreversibilidade.

Portanto, é razoável especular: de qual horizonte surgiria o defenestramento do mal feito organizado, que, por enquanto, nos administra?

Não virá de Curitiba. Nem das instituições. Muito menos da molecada remunerada que depreda sob demanda. Mesmo que a somatória dos fatores acima possa pressionar o resultado final, quem costuma dar desfecho para uma insustentabilidade política dessa envergadura é um outro fenômeno: autofagia.

O poder, fragmentado por contradições, disputas narcisistas, contravenções pecuniárias, e, sobretudo, preservação de pescoços, se dividirá progressivamente.

Isso, até que os últimos em condições viáveis despachem os demais. É então, que estes mesmos, num penúltimo ato e sem conflitos existenciais, costumam se arremessar sobre o telhado.

Nosso problema é saber se a laje resiste.

PS- Churrasco só amanhã.

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