Sobre as recentes escaramuças em Israel

Paulo Rosenbaum

28 de abril de 2021 | 16h30

O Blog Conto de Notícia entrevistou o cientista social André Lajst* sobre as recentes escaramuças entre grupo extremistas para tentar entender melhor do ponto de vista jornalístico o que realmente aconteceu.

Blog: O que aconteceu exatamente no conflito em Jerusalém que envolveu israelenses e palestinos?

André Lajst: Na noite de quinta (22) para sexta-feira (23), vídeos de jovens árabes em Jerusalém e Tel Aviv-Yafo agredindo judeus ortodoxos com tapas e empurrões viralizaram em diversas mídias sociais locais. Em resposta, grupos de jovens radicais de Israel se organizaram para protestar contra os árabes envolvidos no caso. O resultado foi divulgado pela grande mídia internacional, quando os dois lados se encontraram nas ruas de Jerusalém. A polícia israelense interveio na maioria dos protestos, prendeu manifestantes dos dois lados e aumentou a presença de forças de segurança nas zonas sensíveis da capital israelense.

Blog: Quem são e o que representam esses jovens israelenses que participaram do conflito?

A: O grupo israelense envolvido nos protestos violentos se chama Lehava, (“labareda” ou “chama” em hebraico). Conhecido como um grupo radical de extrema direita, apesar de chamar muito a atenção, conta com cerca de 10 mil membros, apenas 0,1% da população israelense.

Blog: Por que ações como essa acontecem em Israel de tempos em tempos, envolvendo árabes que vivem na cidade e judeus israelenses radicais?

A: Desde 1995, quando Israel deixou de controlar os palestinos na Cisjordânia e a Autoridade Nacional Palestina foi criada, a educação da população palestina, o currículo escolar e o gerenciamento de mesquitas e outros centros da sociedade civil palestina passaram a ser feitos pelo novo governo palestino. Na teoria, uma das responsabilidades desse governo seria educar crianças e jovens para a coexistência e a paz. Infelizmente, isso ficou apenas na teoria.

Blog- E qual sua avaliação sobre esta dissociação entre teoria e a prática dos acordos de paz?

Passados 26 anos dos acordos, é frequente vermos em sites, escolas, mesquitas e jornais palestinos, uma incitação à violência contra judeus e/ ou israelenses. Vale fazer aqui um adendo: não me refiro ao Hamas na Faixa de Gaza, grupo terrorista fundamentalista islâmico, conhecido por ser intolerante e radical.

Blog-  Grupo terrorista que prega em sua carta constitucional (sic)  a destruição do Estado judeu.

A- Aqui refiro-me ao governo palestino laico, que controla parte da Cisjordânia, administra os palestinos e, na prática, se relaciona com o mundo ocidental, com Israel e é o responsável do lado palestino pelo processo de paz.

Blog: Sendo esse um problema sistemático na educação – por conseguinte, na cultura — será possível algum dia alcançar a paz/entendimento entre os dois territórios?

A: Não existe nenhuma possibilidade de paz com os israelenses, se o governo palestino continua vendendo uma retórica que o colocou refém das suas próprias promessas. O governo palestino não é democrático. Se um cidadão palestino criticar o governo palestino este pode ser levado à prisão, tortura e até execuções sem o devido processo legal. Enquanto para a mídia internacional esse governo se relaciona com Israel e se declara a favor de uma solução de dois Estados para os dois povos, para sua própria população o mesmo governo vende uma narrativa falsa, acusando Israel e os judeus de profanar locais islâmicos sagrados. O que é absolutamente inverídico.

Blog: Qual é essa narrativa apresentada pelos palestinos que influencia em como os jovens são ensinados a enxergar a convivência com Israel? A: O governo palestino incentiva e apoia boicotes e sansões contra o Estado Judeu, e ensina suas crianças nas escolas que os judeus não possuem nenhuma conexão com a região e que Israel não tem o direito de existir. Em alguns vídeos da televisão palestina, há conteúdos que deslegitimam o povo judeu, afirmando que não se trata de um povo e, sim, de uma invenção. Isso não ocorre do lado israelense. Ao contrário: quando há uma denúncia de algum professor ou educador que incita a violência e o racismo contra árabes e/ou palestinos, o governo e procuradoria israelense irão agir para processar e levar o responsável à justiça.

Blog – Educar crianças para o ódio pode determinar uma geração de intolerantes.

A Quando adolescentes palestinos e residentes permanentes de Jerusalém, que estudaram em escolas administradas pela Autoridade Palestina, cometem atos de violência por pura diversão, agredindo judeus ortodoxos em ônibus e trens da cidade para divulgar nas mídias sociais, percebe-se que há algo estranho na educação dos jovens palestinos.

Blog : Mas se foram radicais israelenses que contribuíram com a violência em Jerusalém, não seria também o caso de uma falha no sistema de educação, tal qual na Palestina?

A: Israel não é um país perfeito e, como em todo país, existem extremismos. O Lehava, grupo envolvido no caso, é uma minoria em relação à população israelense. A diferença é que enquanto o governo de Israel, sendo uma democracia de fato, investe na educação pela paz e em uma polícia capaz de investigar e prender cidadãos israelenses envolvidos em atos de violência, a Autoridade Palestina investe justamente no contrário, enaltecendo estereótipos contra judeus, espalhando fake news e aumentando o ódio contra Israel, tornando a conciliação e a coexistência um tabu imoral entre muitos jovens árabes.

Blog: O conflito em Jerusalém começou na quinta-feira (22 de abril), mas se prolongou e tem reverberado até o momento. Como você acha que essa briga será apaziguada? É possível que esses embates continuem e evoluam para uma situação ainda mais delicada?

A: As agressões de ambos os lados não irão perdurar muito. Os serviços de segurança de Israel não permitirão que isso ocorra. Porém, a ausência de violência é uma medida paliativa para a sonhada paz. É preciso investir em uma educação para a coexistência, cooperação, direitos, diálogo e paz. Nisso, sucessivos líderes palestinos falharam e espero que,  em um futuro próximo, essa realidade mude.

Blog: Os mísseis atirados da faixa de Gaza contra Israel na mesma época tem alguma coisa a ver com os conflitos em Jerusalém?

A Sim, o Hamas e outros grupos terroristas palestinos usam os protestos em Jerusalém como pretexto para iniciarem ondas de violência e testar os israelenses em um momento de crise política profunda no país. Além disso, há uma questão mais profunda que envolve as eleições palestinas. Os palestinos estão exigindo de Israel que os palestinos residentes de Jerusalém, que em sua maioria são residentes permanentes de Israel mas não possuem cidadania israelense e sim, palestina, possam votar nas eleições dentro da capital israelense, algo que nunca existiu e não está previsto nos acordos de Oslo, que criou a Autoridade Palestina. A Autoridade Palestina foi avisada pelos serviços de inteligência de Israel e de outros países, como Jordânia e Egito, que as eleições podem desestabilizar a região a tal ponto que o Hamas e outros grupos terroristas podem ganhar terreno na Cisjordânia. O Presidente Abbas está avaliando postergar as eleições, que deveriam ter acontecido em 2011, e isso irritou o Hamas. Porém, os palestinos usarão Israel como culpado se isso ocorrer, por proibir a Autoridade Palestina de operar em Jerusalém Oriental. Isso pode desencadear mais foguetes de Gaza e uma eventual operação israelense na região.

Blog. Apesar de Israel educar para a paz, você não acha normal que uma hora judeus israelenses, depois de tantos ataques e provocações vindo do lado árabe, se revoltem e atuem, por mimetismo, imitando por exemplo, o Lehava? Afinal de contas, não vejo Israel iniciando guerras contra os árabes, recusando acordos de paz, fazendo atentados contra os árabes ou jogando mísseis contra seus vizinhos

A Existem alguns aspectos sociais e históricos na pergunta. Vou iniciar primeiro pelo aspecto social. O grupo Lehava foi criado inicialmente por judeus mais religiosos para lutarem contra a assimilação, vale dizer perda dos valores culturais da população judaica. Apesar de raro, existem casamentos mistos em Israel, entre judeus e árabes israelenses. Porém, algumas pessoas do grupo chegaram a tentar impedir os casamentos de acontecerem de forma física, e tiveram que ser contidos pela polícia no passado. A partir daí, protestos contra o grupo, organizados por grupos e organizações judaicas mais progressistas começaram a acontecer e se criou uma rivalidade entre os que apoiam o grupo e os que são contra. Lembrando que esse fenômeno não é grande e não envolve muitas pessoas, mas chama atenção da mídia local pela sua peculiaridade. Parte das pessoas envolvidas no Lehava são pessoas conservadoras que lutam contra a assimilação do povo judeu em geral. Já outros têm preconceito contra árabes, porém repito o que afirmei no início: toda sociedade tem pessoas racistas e preconceituosas. O mais importante é a educação institucional que o país tem para combater esse fenômeno.

Blog Que apesar da diversidade é uma educação voltada para a cultura da paz, ou ao menos, por uma questão de compromisso histórico e do background da população que emigrou para Israel depois do fim da II Guerra Mundial, para a cultura da tolerância, uma vez que a liberdade religiosa e mesmo política está assegurada pela sólida democracia praticada em Israel.

A O aspecto histórico é justamente a questão que você perguntou e a resposta é sim. Israel foi atacada diversas vezes, milhares de civis morreram em atentados terroristas que foram comemorados nos territórios palestinos. Mas é importante deixar claro: quem iniciou e propagou a violência em Jerusalém foram inequivocamente alguns jovens árabes palestinos, residentes de Jerusalém, que por pura diversão, ódio e preconceito, agrediram judeus religiosos e filmaram tudo para colocar nas mídias sociais. Uma vez que estas imagens viralizaram, era esperado que despertasse a revolta entre a população israelense e algumas pessoas começaram a conceber atos de vingança, reação que iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Por fim, os protestos, dos dois lados, não foram contra o governo e sim promoção de violência gratuita que foi devidamente contida pela polícia.

*André Lajst é cientista político e analista para o Oriente Médio, doutorando em Ciências Políticas pela Universidade de Córdoba, mestre em Contraterrorismo pela Universidade IDC Herzlyia em Israel e diretor executivo da StandWithUs Brasil.

 

 

 

 

 

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