Sobre os Imperdoáveis

Paulo Rosenbaum

02 Outubro 2016 | 17h58

Quem você não perdoaria? O sujeito distante que não te ajudou ou o amigo próximo que te esqueceu num momento difícil? Um ex namorado relapso? A indelicadeza recorrente de um parente? O político que traiu sua confiança?  Há alguém imperdoável? Quem tem o direito de perdoar? O juiz? O júri popular? A sociedade? Ou perdoar é uma ação que se processa à revelia das motivações legais? Vale dizer, um pessoa reiterada e convictamente hedionda não mereceria desculpas? É fácil diagnosticar o macro execrável. Nossa dificuldade está, como sempre, em detectar o contexto da micro história.  A circunstância única, não fungível, o caso isolado.  O ruim, o infame, o desonesto e o execrável são sinonímias senso comum do que consideraríamos imperdoável. Mas há um imperdoável excelso, magnânimo, que nos subtrai fôlego e vida. Não, não é o pessimista com seus argumentos rabugentos. Este, seja pelo teor admoestador, seja porque nos diz o que os outros querem amordaçar, acaba, mesmo involuntariamente, renovando nossa visão. Há algo mais imperdoável do que a paralisia. Imperdoável é a ideia de que nossas ações não fazem diferença como efeito histórico. Que fazer e não fazer, resultará nas mesmíssimas consequenciais. Se fosse a pauta de um partido tratar-se-ia de omissão programática. Imperdoável mesmo é ter feito o País submergir ao poço mais abissal de sua história. Imperdoável é seguir dizendo que não há o que ser perdoado. Imperdoável é insistir sustentando quem afirma que o projeto era perfeito pena que a população não entendeu.

E hoje há uma outra classe de imperdoáveis. Aqueles que avaliam que quase tudo é igualmente deplorável. Fazem com que suas famílias, amigos e conhecidos sofram com suas imprecações sem fim contra o mundo real. Não que muitas delas não estejam bem embasadas. Maldições regiamente provadas. Quase todas carimbadas com certificação de consultores bem avaliados pelo mercado. Eles até lutam contra este estado. Se de um lado acham que não devem se entregar a este estado de descrédito, por outro, acabam convictos das suas constatações. Na verdade, tem mais do que certezas, reúnem evidências empíricas sobre a veracidade da sua lista de reclamações: a democracia conspurcada pelo dinheiro, as relações pessoais vaporizadas, a sensibilidade esvaziada, a erudição liquidada por ações em massa.

O homo racional tende a esmagar todos os outros com a arrogância da sua inteligência. O mais grave não é a exaltação da razão. O imperdoável têm sido ignorar o homem lúdico, oprimir o metafísico, desiludir o místico e desprezar o afetivo. A dúvida é se temos ou não o direito de contaminar o mundo com dor. É assim que nós os imperdoáveis, semeamos nossa visão. É imperdoável persuadir o crente a ser descrente. Não desejamos elucidar nada, apenas convertemos o crente em alguém que passa a professar nossa falta de horizonte.

Mas há uma outra classe de perdão. O perdão que sugere o reverso da vingança. A oposição ao imitigável. A consciência da comutação.  É neste sentido, e é esta é a época apropriada para tornar isso público, que pedimos perdão, mesmo na condição de imperdoáveis. É em dias como os nossos, que marchamos contra forças ignotas de violência, medo e falta de sentido, nesta época que lutamos contra o efeito manada para encontrar nichos, espaços e ilhas de pessoas dispostas a perdoar. Que seja em breve, ainda em nossos dias.