Supressão de vegetação, a micro-história da luta pelo Ipê Amarelo.

Supressão de vegetação, a micro-história da luta pelo Ipê Amarelo.

Paulo Rosenbaum

10 de outubro de 2021 | 01h43

Poderia ser apenas mais um livro infantil, mas essa delicada micro história da defesa do meio ambiente escrita por Lyslei Nascimento e ilustrada por Júlia Nascimento é, de certa forma, emblemática. Não apenas pela obstinação da juíza aposentada  Neuza, mas pela sua capacidade de mobilizar outras pessoas, pessoas comuns, a maioria sem nenhuma militância em causas de defesa da natureza. O blog Conto de Notícia entrevistou a protagonista da história, Neuza Maria Guido.

Blog Conto de Notícia – Neusa, conte-nos sobre qual é a sua atividade atual.

NMG- Atualmente, estou aposentada após exercer a magistratura pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Dedico meu tempo à leitura, aos exercícios físicos, à convivência com os amigos e, evidentemente, com as árvores.

CN  – Pode nos contar o episódio envolvendo sua defesa do Ipê amarelo?

NMG- Sempre fui apaixonada pela natureza em geral, e pelos ipês, em particular. Em setembro de 1999, retornando do Pilates, observei várias árvores de ipês no meu caminho. Colhi as vagens, que caíram desses ipês, após a floração. Dentro delas, havia várias sementes de tamanho diverso. Decidi cultivá-las, plantando-as em vãos na minha residência. Poucas sementes germinaram. Uma delas virou uma mudinha que resolvi plantar em um canteiro de uma praça no Bairro Gutierrez, por onde eu passava diariamente. Para minha surpresa, e com trabalho redobrado, aguando a muda todos os dias (de 1999 até hoje), ela cresceu bastante. O desenvolvimento dessa pequena muda de ipê foi fruto da colaboração de uma rede de amigos: Tânia, Dona Maria, Sr. Wanderlei. Todos acreditaram que aquela mudinha se tornaria uma árvore!

CN – Pode nos descrever como era a praça que visitava antes que você plantasse a árvore?

NMG – Em junho de 2020, noticiaram a reforma da praça pela Prefeitura de Belo Horizonte. O espaço estava degradado, cheio de lixo e, até aquele momento, abandonado. Algumas pessoas, diante do quadro, afirmaram que era perda de tempo cultivar o ipê, porque um trator viria e passaria por cima de toda a vegetação, incluindo as pequenas árvores e o nosso ipê. Mesmo assim, prossegui cuidando da muda, dia após dia. O trator, nesse mesmo mês, e a todo vapor, começou a obra. Eu estava fora da cidade, mas fui informada pelo Cabo Amorim, da Polícia Militar, do início dos trabalhos. Retornei a Belo Horizonte e fui socorrer o ipê. O trator era comandado pelo Sr. Rômulo e o responsável pela obra era o Sr. José Geraldo. Apelei aos dois para que parassem e fui atendida. Obtive 24 horas para encontrar um meio de resolver a situação. Tudo dependia da Prefeitura. O ipê era uma pequena muda e o projeto de reforma da praça só protegia as grandes árvores.

CN – O que você sentiu ao ver que havia uma decisão daquilo que hoje, eufemisticamente, se chama “autorização para supressão da vegetação”?

NMG – Não me deixei abater. No dia seguinte, retornei à pracinha e tive um encontro muito agradável com os representantes da Prefeitura. Estavam presentes o Sr. José Geraldo, o Sr. Antônio, a arquiteta e outros funcionários do município. Fui muito bem recebida por todos os presentes. Expliquei a importância daquele ipê, de como a árvore, apesar de tudo, ser um símbolo do Brasil. O projeto de lei PL-3380/1961 que visava declarar o pau-brasil e o ipê-amarelo, respectivamente, árvore e flor nacionais, mas esse projeto não foi aprovado. O pau-brasil foi, felizmente, declarado como Árvore Nacional pela Lei nº 6.607, de 7 de dezembro de 1978. Pelos projetos de lei PL-2293/1974 e PL-882/1975, tentou-se, novamente, instituir o ipê-amarelo como flor nacional do Brasil, mas ambos os projetos foram arquivados na Câmara dos Deputados. Diante da minha argumentação, a responsável pela obra concordou que o belo ipê iria permanecer na praça. Foi uma vitória e uma felicidade!

CN – Como cidadã e juíza, o que recomenda aos outros cidadãos ao detectar agressões “oficiais” ao patrimônio ambiental? Dito de outro modo, como defender verdadeiramente a natureza sem se tornar um “ecochato” ou um militante ideológico?

NMG – Nesse caso específico, fui muito bem recebida e ouvida pelo poder público, não existiu qualquer impasse. Deparei com profissionais conscientes do seu papel, inclusive como membros da sociedade em que vivemos, não burocratas ou pessoas alheias às importantes questões ecológicas a que somos e estamos sujeitos todos os dias. Todos foram unânimes em concordar que é importante proteger e cuidar aquela pequena árvore. Dali em diante, eu e os operários cuidamos com o maior carinho do ipê que, feliz, respondeu aos cuidados, crescendo. Vimos, dia após dia, as folhas verdes nascerem e encorparem aquela mudinha. Ela recebia água e o amor de todos. Durante toda a obra, visitei diariamente a árvore. Naquela altura, também os vizinhos estavam envolvidos. Defender a natureza, no meu ponto de vista, é dever de todo cidadão. Todos, indistintamente, têm a responsabilidade de cuidar hoje para preservar o futuro. Sem árvores, não há futuro para nós chatos ou não chatos.

CN – Sempre tendemos a colocar a questão da degradação ambiental nas costas de um poder centralizador. Já pensou em encaminhar algum projeto de lei que desse poder ao cidadão comum, em nível municipal, a partir da sua experiência?

NMG – É nossa responsabilidade evitar agressões oficiais ou não à flora e a fauna do nosso país. Os cortes irresponsáveis de árvores, sem o devido critério, acabam por afetar todo o meio-ambiente. A poda responsável, com a contratação de pessoal especializado, é muito importante, para não danificar ou mesmo matar a árvore, o que vejo, infelizmente, com frequência. Mas o cidadão também é responsável. As agressões são absurdas. As pessoas jogam todo tipo de lixo nos jardins públicos, fazem as árvores de lixeira, de privada para seus animais de estimação, esquecendo-se que vivemos em um espaço comum, que deve ser cuidado. Além do lixo, de pisar nos canteiros e quebrar flores ou arrancando mudas, o cidadão se esquece que, ao danificar as plantas, afastamos as abelhas, as joaninhas, enfim, os insetos que polinizam e fazem proliferar a vegetação necessária à nossa vida. Essas pessoas talvez não compreendam a importância da fauna e da flora para nosso estar no mundo e são exemplos deploráveis para as crianças. Quando isso acontece, os pássaros desaparecem, as abelhas morrem, tudo, que está interligado com o humano, vai embora e se perde. O futuro depende da conscientização da importância de cada um deles para nossa sobrevivência. Então, claro projetos de lei são importantes, mas nossa atitude, diária, individual, exemplar para as novas gerações, é muito importante também. Fico muito triste na minha caminhada matinal quando passo por árvores atrofiadas, sem água, e o morador e cidadão que vive ali, bem em frente a ela, gasta litros e litros de água lavando o passeio e o carro, e deixando um ser vivo definhar na secura.

CN – Como se sentiu vendo o livro de Julia Nascimento e Lyslei Nascimento agora publicado? O que as crianças podem aprender com ele?

NMG – Não consigo explicar, pois as minhas palavras não acompanham os meus sentimentos. São profundos e de muita gratidão, porque elas conseguiram contar a minha história com a pequena muda de ipê, de uma forma que crianças e adultos, de todas as idades, possam entender que não é vão lutar por uma boa causa. Tanto a história narrada quanto as imagens, com o delicado traço da ilustradora, bateram fundo no meu coração. Meu desejo é que esse livro alcance muitos leitores pequenos e grandes. As crianças representam a única esperança deste país em que vivemos. Gostaria que toda criança tomasse conta de uma árvore que estivesse ao seu alcance: no passeio da sua casa, no fundo do quintal, na escola, na praça do seu bairro. Aconselho a todos que, no tempo árido em que vivemos, cuidem das árvores, nossas amigas. Elas precisam de alimento, de água, de cuidado e respeito. Sem elas, não sobreviveremos. Sem pássaros, abelhas, borboletas, joaninhas, vagalumes, não sobreviveremos. Nosso destino no planeta depende desses pequenos seres que têm as árvores como um dos seus habitats preferidos. Quanto aos pais, deixo aqui minha mensagem de esperança: quando presentear os filhos, lembrem-se, evidentemente dos brinquedos, eles são muito importantes, mas além deles, dê ao seu filho uma flor, uma semente, uma planta para cuidar. Os brinquedos, na maioria das vezes, perdem a função depois da infância, quebram, envelhecem, são esquecidos. O gesto de presentear um filho com uma flor jamais será esquecido por ele.

 

 

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