Tal e Qual

Paulo Rosenbaum

18 Dezembro 2013 | 09h59

Ronald Biggs, conhecido pelo assalto ao trem pagador em 1963, morre aos 84 anos

 

A sociedade inglesa nunca pode conceber. Como criminosos ousam encarnar o papel de herói? Há décadas, os jornais e editorialistas de Londres se perguntavam em sucessivas manchetes: como nasce e perdura o culto ao transgressor? Afinal era um trem pagador! É culpa dos trópicos? Abaixo da linha do Equador é mais fácil enaltecer a transgressão? Gaspar Barlaeus já havia noticiado. Nesse caso, o ladrão personifica literalmente a contradição na cultura. Ninguém disse que na terra dos bretões era fácil ser Robin Hood. Ele nunca foi, mas passou a acreditar que as justificativas iriam nessa linha. Nas entrevistas pagas, se mostrava afável, simpático, erguia o lábio para narrar sua odisseia na contravenção.

O paraíso só acabou quando percebeu que uma aposentadoria nos moldes da tradição anglo-saxã era melhor que o INPS. Que a leniência universal têm evidentes desvantagens quando se trata de colher os benefícios da velhice e da aposentadoria. Afinal, trata-se de uma vida inteira dedicada ao trabalho. Que seja a um só. Na idade das relativizações, ser assaltante passou a ser ofício, como outro qualquer. Ele vivia de fama, do prestígio, da proteção política. Vivenciou um personagem que ele fez com que muitos outros acreditassem que ele protagonizou.

Não precisamos dele, temos nossos próprios Ronalds, tal e qual.