Timing e justiça poética

Timing e justiça poética

Paulo Rosenbaum

05 Outubro 2014 | 06h42

Juro, é incompreensível. Eles bem que prometeram, o bicho iria pegar. E mesmo assim, ninguém ainda sabe qual vai dar. Não é descrédito nos instituto de pesquisa, apenas respeito pelo imponderável. Timing sempre foi vital. Na política, perdê-lo costuma ser desastroso. Custava a história postergar junho de 2013 para meados deste ano? Fosse assim, a aspiração de parte significativa de brasileiros estaria previamente garantida e alguma oposição vingaria. A eclosão precipitada, o parto prematuro e a pressa do processo histórico pode ter nos custado caro. Um perturbador continuísmo. A arrogância maciça. O totalitarismo de gabinete. Ou será que tivemos transformações das quais ninguém se deu conta? Mobilidade urbana? Reformas políticas não oportunistas? Descentralização de impostos? Controle da inflação? Ajustes nas contas públicas? Transparência e diálogo? Não só tivemos Copa, como os benefícios palpáveis perduram invisíveis. Por capricho aleatório dos eventos, corre-se o risco de engolir mais enganos sucessivos, submissão à manipulação e observar o agônico torniquete contra as liberdades democráticas. Se perderem vão culpar a mídia, levando estufarão o peito e será “apesar dela”. Nada é fortuito: num País rachado, a tentação controladora fica mais plausível. Nesta peculiar democracia, programa de governo tornou-se agenda secreta: só em primeiro de janeiro. O mérito pela diminuição das desigualdades? Coletivo, vêm de longe. Resultado direto do espantoso respeito inicial pelas conquistas republicanas. Mas gula e cegueira podem ter se tornado pandemia contagiosa. Um jogo não deveria observar regras? A constituição não exigiria garantias e igualdade de oportunidades aos candidatos? Ou a máquina do Estado foi expropriada, e doravante declarada propriedade do partido? Só para saber: qual órgão da República fiscaliza a matéria “difamação e calúnia” no horário político gratuito? No futuro, podemos nos pegar rindo da navalha sobre a qual estamos suspensos. Infelizmente, o presente têm mais rigor: só nos permite votar, cruzar os dedos e esperar pela justiça poética com ou sem timing.