Transitoriedade

Paulo Rosenbaum

16 Maio 2016 | 10h40

Instável, é como definimos o agora. Instável, o que vemos lá fora. Inadequado, o cenário não procede. Não sei se é por isso, mas pertencimento faz cada vez menos sentido. E se essa for a identidade? Um permanente não pertencimento. O direito ao isolamento. O não alinhamento. E se o poder for o fator de nosso esvaziamento? Recusar o estado dramático? Que escraviza pelo medo? O espelhamento hostil que degrada. Estamos saturados de sonhos cortados ao meio. Esfacelados por perigos ocultos e seu proposital rastro de opacidade. Cegos pelo infinito desleixo. E se só não desejarmos mais fazer parte? Tomar partidos? Recusar as conclamações? Faculta-se o direito de não opinar? E se as minhas percepções não precisarem de respaldo? E se recusássemos as histerias? Ou esquecêssemos ideologias?  Ninguém sabe: nenhuma facção oferece resposta. E se fôssemos menos atentos? Recuperar os sinais analógicos da convivência. Sem as digitais descartáveis. Sem o peso da coerência. E, se, desligados, cedêssemos espaço à alienação. Razão pura e sentimentalismo puro se esgotaram. Estamos na mesma nau, remando contra mares oblíquos. Embarcados de improviso queremos descer dos desvios de finalidade. Dos privilégios de consenso. Das instâncias superiores. Das nomeações de réus. Não enxergamos união onde ela inexiste. Exige-se honestidade que explicite conflitos. Eis o realismo imediato. E ele não é para todos. Com a melancolia antecipada, oscilamos na adaptação. É sôfrego constatar; nas horas decisivas, a responsabilidade é indivisível. A decisão, isolada. A ameaça, corrente. Empenho e aposta. Reformas e resposta. Tínhamos exclusividade, recusamo-la. A oportunidade, desperdiçamo-la. É mais do que justo condoer-se com a miséria e divergir na terapêutica. Relutamos, sem notar que a vida não incide lá atrás. Não há futuro sem o instante. Não é possível sofrer adiante. O tempo, vigente, único presente. A política não define mais ninguém, e os rótulos perderam a validade. Velhas vanguardas dormem no deja vu. A justiça já não representa o poder. Toda mudança é assim, pródiga em sustos. É preciso lembrar, se a felicidade esta nas relações e as inimizades políticas são circunscritas, o fôlego é provisório, e amizades devem sobreviver à liquidez do transitório.

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Prezados amigos do blog e colegas jornalistas, convido todos para o lançamento do meu livro “Céu Subterrâneo” que acaba de ser editado pela editora Perspectiva. Trata-se de uma ficção escrita a partir de uma estadia em Israel e definido pela professora titular de literatura da USP Berta Waldmann, que assina a apresentação, como “Um Midrash brasileiro”. Também contei com a preciosa ajuda da Professora Lyslei Nascimento da UFMG que elaborou a orelha do livro. A lista de pessoas para agradecer é bastante extensa. Pretendo fazer isso pessoalmente. Então amigos, será dia 17/05 as 18:30 na livraria Cultura do Conjunto Nacional em São Paulo. Agradeço antecipadamente a quem puder vir, compartilhar e divulgar para outras pessoas.

Um grande abraço,

Paulo Rosenbaum

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