Trecho Não sujeito à Neblina

Paulo Rosenbaum

24 Dezembro 2016 | 14h29

Ao ler as manchetes, o dia parecia sombrio. Há sinistros por todos os lados. O de sempre, reações desproporcionais, complos e alibis. A união de arbitrários. O acordo dos mandatários. Povos  sem democracia. Califados refeitos com tiranos eleitos.  Sob o terror protegido pelo pudor.  A inação que favorece o atropelador. A extensa rede de apoio ao lobo avulso municiado. A perversão da linguagem que justifica o agressor.

Na subida da serra, outro aviso de perigo. Poderia ser apenas mais uma placa. Cuja direção mudava conforme o vento.  Foi quando percebeu: amanhecer não é tarefa que se escolhe. O esperado é sucumbir à avalanche de infortúnios. É aceitar a inoperância.  Avalizar o sacrifício alheio de muitos em beneficio da ideologia privada dos bem pensantes. Mas eis que foram os homens que fundaram todas as alcatéias. Armaram todas as minas, fundiram todo plutônio. O acaso?  Já obteve seu habeas corpus.

A neblina cedeu e foi possivel ver um pouco mais adiante. Diante da natureza, estamos sós. Nela, a estranha virtude do estoicismo é constitutiva. O dia surge alheio às vontades individuais, e a criação se reorganiza com espantosa autossuficiência. Nossa dependência do surgimento é orgânica. Eis uma neblina que esclarece. Que faz nascer. Estivemos sempre aqui. Muito antes da evolução tínhamos percebido as marés, as correntes retrógradas, os maremotos sincréticos, as ilhas vulcânicas. O caos é só um mar reverso de ocasião. E haverá o teto de passagem que é nosso céu. Pensamos, apenas pensamos emprestar voz ao destino.

Mas a alçada é mais ampla, a rota indecisa, o sono irregular, o final tardio. Somos uma consciência sem vigilia. Uma singularidade divisa. O limite entre terra e areia. Estamos na locução das praias. No curto gemido dos pássaros. Enquanto o sol nasce, descemos como nunca, ao primeiro dos dias. Ao nunca visto. A primeira rajada. No mármore dourado do nascente gravando os caules. Visitamos as palmeiras e os salgueiros.

Para dizer: espaço.

Nosso canteiro fica bem aqui. O regaço de uma cultura. Arqueólogos  honorários a preservarão . Hoje é um dia primo para resistir às desistências. Para reafirmar a identidade frente aos que pensam ceifa-la. Seja lá qual for a tradição, hoje, a tradução será livre.

Livre-se da imposição, do convencimento, da persuasão. Livre-se daqueles que dizem ter o monopólio da liberdade. Livre-se de quem te assombra pela angústia. Fuja da redoma de enredos pré montados.  Uma festa com luzes não se apaga com discursos. Não faz renascer com apologias. Não se acende com desconfiança. Uma festa de luzes se faz com pessoas e aproximações. É uma estética da paz. Mas não de qualquer paz. Muito menos daquelas que entenderam o que ela significa e, por isso mesmo, a sabotam.  Da paz que subverte a omissão e a perseguição.  Da paz que tem a coragem de dizer não às nações que se unem para condenar outras ao isolamento, enquanto estas mesmas nações se calam frente às evidencias de injustiças e massacres.

A paz é a pré condição unica de terras para todos.  Ainda assim, neste trecho não sujeito à neblina, já ê permitido desejar: feliz dia da sua tradição.