Um Antepenúltimo Kadish

Um Antepenúltimo Kadish

Paulo Rosenbaum

22 de março de 2022 | 00h23

Um Antepenúltimo Kadish*

Durante a inauguração da pedra

Arte a partir do desenho de Hanna Rosenbaum

Como você alternou de forma tão clara a consciência com nonsense?

A alegria com o senso agudo de realidade, a retidão com o desapego.

A pergunta que me persegue desta tua última aparição, não a dos sonhos,

mas daquela noite.

Aquela que foi tua última noite de consciência (ou vigília?)

O que você quis realmente dizer com as últimas palavras?

Você cutucou o braço da moca da enfermagem para tentar dizer algo, mas não disse,

Não poderia dizer. Estavas sem voz. Tua voz, para nós continuamente sagrada e apaziguadora.

Firme, e ao mesmo tempo, gentil.

Como dizer para qualquer um aquilo me quebrou em migalhas?

Cheguei a achar que eram disformes, irrecuperáveis.

Mas pensei no que você diria: há afinal algo irrecuperável?

Ou somos ineptos para entender este estado da consciência?

Você dizia que queria que tentassem de tudo.

O que esquecemos de tentar? 

Talvez deixar tudo ao acaso como queriam aqueles que achavam que nada vale a pena.  

Mas, e teus segundos de contemplação arguta?

E tua mão recebendo a minha gelada quando te anunciei que era o dia mais frio do ano.

A noite mais fria da Terra, da nossa terra.

Da terra comum que  acostumamos a criar juntos.

A noite da despedida da saúde que nunca chegou.

E sabes por quê?  

Porque você sempre recusou despedidas. Você as rechaçava.

Tua missão de hoje?

Que tal relatar qual foi o acordo que você fez com o Criador?

O pacto que você preferiu guardar. O segredo que jamais conheceremos.

Mas eu o intuo.

Era sua recusa anárquica em ceder, em fazer concessões à severidade excessiva, em achar graça das formalidades, da seriedade burocrática.

Ou rejeitar aquilo que chamam de inexorável.

Ao que a vida material quer nos impor. Como você sempre afirmou sem um vestígio de desengajamento “este é um mundo de forças inferiores” e nossa única missão é desembrutecê-lo.

Como as armas que temos, suavidade e generosidade. 

Tua consciência permaneceu sempre límpida.

Tua visão do olam raba, o mundo vindouro, era clara.

Sempre foi. Não era apenas o imaginário ordinário de uma passárgada, mas um paraíso cheio de festividades e danças celestes.

Esse era teu talento. Nos tirar do sufoco da constância da gravidade, nos elevar até o teu invencível sorriso  

E quando os céticos te pressionavam você também sorria, já que eles não conheciam tua obstinação em servir a D-us de uma forma verdadeiramente individual e única como nos ensinou o Mestre do Bom nome, Ball Shem Tov.

Como poucos você conheceu a adesão, a proximidade máxima, a Dvekut.

Como um Moisés de nossos dias, depurados de decretos de faraós antigos e contemporâneos. você foi entregando tua vida para ser reparada pela influência solar.

Sob o sol que te esquentava no sofá. Na poltrona que te atraia para nos servir o café do dia a dia.

Sem omitir a famosa bengala que usavas como batuta. 

Como você conseguia arrancar do cotidiano o extraordinário que ninguém mais reconhecia?

Há um mistério aí.  

Sabemos que há um Juiz da Verdade, mesmo não sabendo quem é o ‘“Grande quem?”  

Na tradição judaica “O Grande quem”, só pode ser quem sempre te orientou, e te inspirava em segredo uma vida rara.

Quando você me perguntava como se alcançava a Grande Vida: você sabia, era o único que já conhecia a resposta.

Esta frase do Talmud aqui grafada no mármore preto: “Um sábio é maior do que um profeta” nunca foi exagerada: você realmente foi ambos. 

Te declarar este apreço deve ser um exagero, decerto perdoável.

Você está mesmo em outro lugar? No terreno que flutua, do qual nenhum habitante jamais retornou?

Para mim tua presença é ainda tão palpável e tua voz faz tanto eco que só confirma a existência da música indissipável.

Muitos me falaram: te amaram mesmo sem nunca ter te conhecido, isso só pode significar que os inesquecíveis são imortais.   

Eu te perguntava o que significam as grandes assimetrias, o mero respirar, as façanhas fúteis, as sagas e vaidades daqueles que só veneram a si mesmos.  

“Esquece”, você respondia.

Achavas que a existência  e a alegria valiam mais.

Era o jarro dos levitas que te hidratava com um sentido invisível para o senso comum.

Teu lema “rir a cada 15 minutos” sempre soará enigmático para a multidão.

Rir de si mesmo. Rir da pretensão. Rir das compreensões provisórias, ou seja, todas.

Rir como um ajuste de contas com as racionalizações abusivas. 

Mas, preciso registrar Pai, a verdade é que ficou bem mais difícil.

Prometo, isso é provisório.

Logo adiante, fiéis à tua tradição, retornaremos ao lúdico, aos jogos de palavras, à felicidade imotivada.

É assim que te honraremos para sempre.

* Para Mosche Aaron Ben Nachman Wolf

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