Uma aventura nos subterrâneos da indústria editorial* (por Saul Kirschbaum)

Uma aventura nos subterrâneos da indústria editorial* (por Saul Kirschbaum)

Paulo Rosenbaum

04 de novembro de 2021 | 10h35

Uma aventura nos subterrâneos da indústria editorial* (Resenha do livro “Navalhas Pendentes” por Saul Kirschbaum)

Foto Polly Schiviek

O autor de “Navalhas Pendentes” já havia publicado antes dois romances: “A verdade lançada ao solo” (Record) em 2010 e “Céu subterrâneo” (Perspectiva) em 2016; este é o seu terceiro romance, editado pela Caravana Grupo Editorial.

É digno de registro, para começar, o fato de que a ambientação do romance é atual ao ponto de refletir situações muito contemporâneas  ao considerar que estavam ocorrendo eventos muito distantes da normalidade na empresa em que trabalha. Na seguinte passagem  focaliza a crise que estamos vivendo por conta da pandemia do Covid-19 e do negacionismo que se alastrou:

“Era difícil falar sobre normalidade quando uma parte significativa do mundo teve de ficar em estado de animação suspensa por crises ininterruptas, pandemias, guerra e depressão econômica. Mas não há nada maior do que o desejo de seguir adiante, nem que para isso tenhamos de viver em negação.”

No aspecto estrutural, trata-se de um romance autodiegético, ou seja, narrado em primeira pessoa pelo protagonista. Numa primeira leitura, a obra se apresenta como uma novela policial. Os vilões são “tubarões” do mercado de produção de livros, Giaccomo Gentil, proprietário da Filamentos, muito bem-sucedida editora brasileira de romances populares – na qual trabalha como revisor o protagonista , Homero Arp Montefiore -, e Otto Jorgensen, proprietário da Forster Inc., editora holandesa que está em processo de fusão com a Filamentos, para constituírem, sob uma fusão , um aglomerado de grande porte.

Um atentado aparentemente cometido – por quem? – contra o protagonista, e boatos de que teria caído em desgraça na editora, por não querer compactuar com certos procedimentos  a ponto de estar por ser demitido, fazem com que Homero se envolva em uma perigosa investigação: o que está acontecendo com ele é parte de tentativas de ocultar um plano criminoso? Qual é o crime que está sendo planejado? O quê, em sua conduta, pode pôr em risco o plano?

Mas o suspense é a tônica do romance, exigindo que o leitor fique atento: de que lado estarão as demais personagens, como Cleo, a esposa do proprietário, e outros funcionários de alto escalão da Filamentos? Que segredos estão ocultos no anexo secreto que Homero descobre na sede da editora? Que mistério cerca Karel F., responsável pela autoria dos romances mais bem sucedidos dentre os publicados pela Filamentos, mas que nunca aparece em pessoa, que só concede entrevistas por via eletrônica, sempre sob intermediação da editora? Tão enigmática que até mesmo a autoria de seus livros era questionável. Karel é descrita pelo narrador em termos como os desse trecho:

“Nos textos, mostrava-se hostil, depois arrependido e, finalmente, aberto, bem-humorado e, às vezes, com doses de solidariedade. Karel era um borderline, um bipolar? Dizem ser comum em roteiristas e dramaturgos. Era razoável supor, já que o escritor vive graças ao fracionamento da personalidade, que é dessa divisão que eles extraem seus deslocamentos e dali que eles conseguem se estranhar e, ao modo de um Geist, habitar como um fantasma sob a pele dos outros.”

Aos poucos, a narrativa avança, e o leitor percebe que o que está sendo ocultado tem a ver com o mercado editorial, na medida em que esse mercado é gradativamente afetado pelos avanços tecnológicos. Sob essa metodologia encontra-se a elaboração de complexos programas a serem executados em computadores gigantescos para incorporarem os recursos disponibilizados pelos processos da chamada I.A, (Inteligência Artificial).

A trama criminosa se desvela passo a passo, em uma progressiva escalada de gravidade. Na resenha de uma obra de ficção, não é adequado “dar spoiler”, mas o trecho a seguir – evitando cair nesta tentação – dá uma ótima ideia a respeito do que – no romance – acontece no mercado de produção de livros:

“Fui um dos últimos a desvendar o que quase todos já sabiam. A origem venal para um crime comum. Giaccomo usava obras bem avaliadas por nós, mas oficialmente descartadas, que, traduzidas, poderiam ser publicadas na Europa. Um velho editor já havia insinuado que era esse o padrão, a nova modalidade de colonização. Exportávamos matéria-prima de ideias e obtínhamos, de volta, títulos de sucesso bem embalados.”

Os subterrâneos do mercado de livros, no entanto, são ainda mais obscuros. Nas palavras de Karel F. :

“– Livros digitais? Pequenos delitos editoriais? Tudo era só fachada, crimes parasitas, um véu, a conspiração é outra. E, nesse campo, eu não teria a menor chance de sobreviver. Por isso, concordei em manter as aparências.”

Característica importante do romance a destacar é que ele pode ser lido em camadas de complexidade crescente. Numa nova leitura, veremos que existem outras “navalhas pendentes”, onde estão  em tela de juízo, a própria literatura. Ou seja, o autor nos oferece, por intermédio da voz de um outro narrador – um famoso psiquiatra espanhol que pesquisa as motivações dos escritores – que tece reflexões sobre o próprio que fazer do ofício literário, ou seja, a necessidade, a importância, a viabilidade da elaboração literária em nosso tempo, a eventual obsolescência da literatura, como na seguinte passagem:

“Na gênese da inspiração, que é uma fantasia, pois a rigor ela não existe do ponto de vista neurológico, está a tentativa de superar algum tipo de estresse pós-traumático. Ainda nos faltam elementos para classificá-la como uma entidade nosológica, mas a insistência em escrever ficção e poesia nos parece uma atividade que está ficando cada dia mais obsoleta. Isso só reforça a tese de que se trata de uma disfunção. Sei que poderá soar exagerado, mas como  todos os outros recursos tecnológicos de vídeo e cinematográficos existentes, quem ainda considera escrever uma atividade necessária?”

Não por acaso, o narrador informa que “o penúltimo original de Karel F. era diferente de todos os demais.”

“Era uma ficção sobre o fim dos livros impressos e sua progressiva criminalização”.

Parodiando Marx, o narrador menciona um “exército industrial de escritores na reserva”. Em outro trecho, o narrador reflete sobre as lições a respeito de literatura que havia apreendido em sua função de revisor:

“Enquanto estava em processo de avaliação de um manuscrito, tinha presente a sentença de Paul Ricoeur: ‘Só há uma única forma certa para dizer as coisas.’ É estranho, mas, depois de elaborar pareceres para milhares de originais durante duas décadas, ainda não conseguia ver um talento que tenha tido êxito sobrevivendo pelos encaixes perfeitos que fez. Concluí que Ricoeur só pode ter exagerado. Não há fórmula nem exatidão na literatura. Não poderia haver. Mas e se houvesse uma fórmula para descobrir? Não era o que as pesquisas faziam ao ir às caixas registradoras das livrarias para analisar o que se vendia bem? O que caía no gosto do público?”

Afinal de contas, o  quer o grande público ler? Como diz o proprietário da empresa:

“O grande público não quer Shakespeare, não aprecia poesia e abomina aqueles calhamaços, ninguém mais perde tempo com livros grandes”.

O protagonista tem, em seu próprio nome, “Homero” e “Montefiori”  a confluência das duas grandes civilizações; mas sua verdadeira identidade somente é revelada nas últimas páginas, quando se evidencia que o tempo da narrativa é bem posterior ao tempo narrado, que o narrador está “lembrando” o que lhe aconteceu anos antes:

“Para sair do país, tive de trocar de identidade mais de uma vez. Pensei em viver na Comunidade Europeia com o passaporte italiano que me custou mais de 10 mil euros e demorei anos para conseguir. Mas extingui meu nome antigo e a Europa estava acabando mesmo (…) Minha atenção voltou-se para o Extremo Sul. Escolhi o refúgio nessa espécie de paraíso na estepe. Hoje vivo perto de uma montanha, numa província ao noroeste da capital.”

Enfim, neste recém-lançado “Navalhas pendentes”, Rosenbaum desenvolve uma trama densa, cheia de reviravoltas inesperadas, ao mesmo tempo carregada de sutil ironia, que mantém o leitor em tensa expectativa até a última página.

*Rosenbaum, Paulo. Navalhas pendentes. Belo Horizonte: Caravana, 2021. 330 p.

 

 

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