Uma novíssima vocação para o teatro

Paulo Rosenbaum

26 Setembro 2017 | 13h44

 

A peça “Madalena bêbada de Blues” do dramaturgo Leo Lama (que também assina a direção) em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso em curtíssima temporada exige preparo. Não é um lazer comum. Na verdade, não se trata de entretenimento, mas de missão, missão para o teatro.

Não é que as cenas acontecem, muito menos em harmonia: irrompem-se, eclodem, as vezes são sopradas ou sussurradas da boca dos atores para uma plateia perplexa. Tudo a partir do que o autor e diretor vem chamando de “ator em repouso”. Com diálogos curtos, as vezes ásperos e com alguma inserção poética, o “bar” é um preâmbulo para a entrada de um teatro. Mas qual teatro? No desenrolar dos diálogos triangulares fica claro que trata-se da busca pela liberdade interior, a saber, as referencias veladas a carga de transcendência obscurecida. Obscurecida pelo sexo dessignificado, pelos símbolos esvaziados, pela comédia humana que perdeu a identidade. Esgotados todos os desafios a saída pode ser voltar a ser um observador na própria atuação. Ali estão o silêncio e o vácuo.

Lama aposta na crítica metafórica dos costumes culturais. A auto referencia – que poderia comprometer a inovação experimental proposta — dissolve-se na presença cênica e numa dicção assertiva e eficiente das atrizes. Jograis de ecos ressoam durante todo o percurso do drama. E quem seria afinal o “maior ator do mundo”? Pouco importa, pois o que está em jogo é exatamente o difuso pátio do self em sua relação com o “Messias dramático”, ora sujo e abandonado,ora o sedutor de amor abrangente que cativa para abandonar as três Madalenas, da juventude a velhice.

O texto investiga, alegoricamente, a “fé” lato sensu. Num dos melhores momentos a esperança da promessa do amor da atriz mais jovem é tratada como um caso de “crença” que será curada com a mágoa, a decepção e doses continuas de mundo sórdido.

Em dinâmica que beira um transe mediúnico as três personagens de nomes homônimos (as excelentes atrizes  Dani Nefussi, Silvia Poggetti e Ana Tardivo) constroem uma espécie de auto exame da situação do teatro, vale dizer uma metanalise das condições em que todos, atores e público, se encontram.

É exatamente este gap, a fenda, — que Marcel Duchamp definiu como o essencial da arte – que produz o efeito eletrizante no palco desta peça.

Com texto e direção de Lama as três atrizes fazem um solilóquio sonoro, onde as vezes o expectador é pego de surpresa com recursos de sonoridades inesperadas. É possível jurar que há alguém operando recursos de sonoplastia, que alguém está operando um sino, flauta, ou apito tibetano chega-se a ouvir o som de “tubular bells” — instrumento inventado por Mike Oldfield. Mas tudo não passa de um virtuose, de conluio vocal que faz emitir os inusitados sons. É esta simplicidade que Lama enfatiza para devolver a riqueza do teatro ao ponto aonde, segundo ele, o teatro se extraviou. Ele pode ter razão.

Nada de figurinos, cenário, coreografias, tudo está centrado no texto e nesta magistral ênfase na simplicidade (que nada tem de simplificadora) quando as atrizes encontram uma harmonia (notas tonais que formam musicalidades criptografadas) cuja frequência as vezes adoça e em outras, apenas provocam a audição. A tentativa – em vão – de se encontrar “o maior ator de todos os tempos” e a busca espiritual do “Messias do teatro” coincidem. Reacendem o desejo de saber que tipo de literatura dramatúrgica ainda faz sentido para nossa era.

Em metáforas contundentes – o único reparo é o tempo de duração do espetáculo que funcionaria melhor se enxugado para 40 minutos – o público é conduzido a reagir, e isso acontece no final do ato único. Recomendo a experiência, decerto o “maior ator de todos os tempos” não desfilará, não aparecerá nas mídias sociais, não dará autógrafos, mas deve deixar uma marca: algum signo estampado na sua testa.