Vaga, Republica, Vaga

Paulo Rosenbaum

09 Maio 2016 | 18h10

Reparem nos cargos, nos bigodes, na carga espessa de um regime em frangalhos. A única obsessão é preservar-se nas alturas de um glória rota. Eis a eminência do grande espasmo, o final. O time que acelera sua força contra quem deveria estar protegido. O cinismo justaposto com o discurso das medidas excepcionais. O Traçado é curvo. As trapaças costumam atropelar quem enuncia a vitória previa. O jogo não está ganho,nunca. Mas quem é serio precisa assumir e propagar: as instituições funcionam. Mal. São capengas. Foram montadas em cima de um corpo em decomposição. Na contenda continua, o reparo pode ser o fim. A tentação é violenta, mas a loucura só exalta tiranos. Empodera quem aposta na anomia. Estamos numa poderosa antevéspera. O Pais declina de sua condição, pois gerar instabilidade era um imperativo para o projeto. Uma premissa para os artifícios da selva montada nos municípios. Quebrar o sistema, nos sonhos fanáticos, é poder brincar de “Pátria idealizada”. Montaram essa anti-civilização que atende pelo nome de projeto político. A política, não podendo mais ser assim chamada, constrói-se agora no plano de uma resistência sem cabeças. Numa horizontalidade amorfa, líderes insípidos e carismáticos sanguíneos usurparam os espaços regimentais.

Os apoiadores do regime se ocultam numa ignorância estudada. Quem gastou tinta e papel para escrever “fora Cunha” sabia muito bem o que queria. “Fora Cunha” agora significava “emaranhado agora”. E quem endossou o slogan anti cunha, sob o signo da exceção, também. Eis que os alvos, moveis, não mais comportam miras. Só há um transtorno, uma vítima, um exílio e um ostracismo: das pessoas que querem viver em paz num País que não oferece garantias mínimas à cidadania. Contra a arrogância e a platitude dos filósofos que bradam a má consciência, existe uma população esmagada, atreladas a conflitos e disputas que ela não escolheu, e, por isso, jamais os mereceria. O palco de arrelia é uma espécie de estágio final, a farra terminal, o suspiro do demiurgo. A tirania costuma eliminar um último dejeto, o mais abjeto e repulsivo, aquele que deflagra o contágio.

O que ninguém contava mesmo é com a vigília de uma multidão outrora dispersa. Ninguém previu a multiplicidade das pessoas que, por intuição, decodificou a psicologia de massas. Não foi através dos bem pensantes. Nem dos eruditos. Aliás, precisamos aprender a não contar com eles. Se algo está para acontecer foi por um mérito autodidata, o qual, por sequelas contínuas e arbitrariedades normativas pressionaram por respostas. Respostas que nasceram sob o embolo da luta pela sobrevivência. E quem gosta de se encostar nas definições fáceis como “direitistas”, “Moralistas” e “conservadores” pode perder o último fiapo de prestígio intelectual remanescente. A complexidade é arredia às etiquetas. Não se pode colar estereótipos em 93% da população. A sublevação que ascende foi pelos insistentes atentados à justiça. Uma justiça que, lenta, naufraga pela sucessão de golpes abaixo da linha aceitável.

A calma é, neste momento, um antídoto invisível. Mas é a ela que devemos recorrer. Basta saber que o desespero costuma ser a efeméride dos desfechos. A antítese dos acordos. Os consensos em estilhaços correm à reboque dos conchavos regados à pré-datados. E, mais uma vez, assistimos, vulneráveis, a República que Vaga. Mas o que define uma República senão aqueles que a tornam viva? Que a preenchem? Não há mais soberania em lado nenhum. A mordaça contra a opinião pública pode vigorar por hora. Mas, é a história que enfim nos autoriza a comunicar. Temos todo tempo do mundo para fazer saber: nós, governados, viemos para ficar.