Veto ao contraditório

Veto ao contraditório

Paulo Rosenbaum

27 de fevereiro de 2015 | 19h32

proibido pensar

O País já vive uma epidemia de ódio, polarizações inúteis, e explicitações infantis. Quem ainda não sabe que estamos sub gerenciados e mal pagos? Precisamos ouvir diagnósticos dos gringos do The Economist, New York Times e das principais mídias do mundo? Impossível não evocar outros anúncios épicos. Quem não se lembra da declaração do especialista norte americano que selou o veredito quando ainda sonhávamos com Tancredo Neves assumindo a presidência no lugar da dinastia maranhense? “This is a terminal disease”,  falava o médico de uma das janelas do INCOR Nossa ficha, parece, só cai quando é proferida em língua forte.  Vivemos na maldição da bolha antirreflexo: quem está dentro não enxerga o que está na cara e quem olha de fora pode ver, com alguma nitidez, o tamanho do mal feito.

Mas a última palavra em matéria de distorção, de perversão intelectual militante, de negacionismo cabotino, tem sido o ambiente de  veto ao contraditório. O qual significa, depois de tudo debatido, um decreto branco pela interdição do pensar. No novíssimo glossário, discordar é coisa de golpista. É delito contestar. Criticar, plano arrivista da classe média. Nesta nova modalidade de rotular desafetos, a esta altura a maioria, o partido se supera. Já parecia imbatível sua habilidade em manipular pleitos, CPis e usar bases como pano de fundo para o exercício do centralismo partidário. Agora Brasília joga no melhor estilo dos filmes de Costa-Gravras. A República fica assim a serviço do poder. Ameaças contra a liberdade percorrem os jornais. E vozes subsidiadas com dinheiro público arrastam populações e setores sociais para o conflito.

É evidente que novas manifestações virão sob um governo com baixíssima aprovação em início de novo mandato. Mais uma oportunidade para subsidiar grupelhos incendiários e alistar exércitos informais entre os movimentos sociais. Há especialistas nisso. A esperança é instrumentalizar o medo. Inibir opositores, adiar, tomar fôlego até superar a crise. Para eles, um vazamento sem importância. Apenas um efeito colateral no plano de colonizar as reservas do País.  Mas o plano pode ser muito mais arrojado do que isso. Precisam do silencio dos descontentes. Cresce a lista de assuntos criminalizados. Ninguém sabe se é ou não o caso de impeachment. Talvez não, mas o perturbador é impedir a circulação deste e de outros temas que desagradam a cúpula. Transforma-los em tabus é a solução perfeita. Diálogo é um estorvo para projetos hegemônicos.

A linguagem confirma a peste emocional. Bastaria a peça criativa “inimigos externos da Petrobras” para endossar a tese. Mas muito mais escorre dos refis da presidente, do ex-presidente e dos assessores de ambos. Lula, ao explicar didaticamente para sua cria inacabada que ela “não deveria dar trela” (para as denúncias) e ficar de “cabeça erguida”, afinal “ganhou as eleições”, mostra o enfoque reducionista ao qual estamos sendo submetidos. E desde quando ganhar as eleições é suficiente para conquistar legitimidade acima de qualquer suspeita?  A democracia ainda tem mais regras do que a contagem eletrônica de votos. Respeito é uma delas.

Tivéssemos uma pendenga com os ingleses na disputa por alguma ilha, talvez corrêssemos o risco de aventuras militares pouco recomendáveis. Como reina plena normalidade em Caracas e Cristina controla o judiciário por bem ou por mal, o Planalto encontrou inspiração suficiente em grotões bolivarianos para blindagens diversionistas — entre outras, enormes gastos com propagandas requentadas do pré-sal em horário nobre e saciar almas sedentas por verbas de emendas parlamentares.

Sem uma palavra de autocritica ou satisfação à opinião pública, agentes públicos do executivo prosseguem em busca de uma normalidade inexistente. “Eles não entendem”, foi a frase magistral diante do rebaixamento da estatal pela agência de classificação de risco. Nós também não. O clima geral só confere mais consistência empírica à tese de que o Brasil é mesmo ingovernável. Isso se nota melhor quando aqueles que pilotam passam a culpar governos aposentados e até mesmo passageiros pelo previsível desastre. Num voo cujas luzes de emergência já saem acesas antes da decolagem é de se prever que se os cintos não estivessem já afivelados o desembarque imediato seria a única legítima opção na medida em que não podemos contar com legitima defesa.

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