Vitalidade do Livro 3 – Investigação sobre o estado da arte editorial – Entrevista com Rodrigo Lacerda

Paulo Rosenbaum

30 de junho de 2022 | 19h14

VITALIDADE DO LIVRO 3- Uma investigação sobre o estado da arte editorial

Entrevista com Editores – Paulo Rosenbaum

Conto de Notícia – Estadão

Dando prosseguimento às entrevistas de caráter multidisciplinar, convidamos o Editor Rodrigo Lacerda para uma entrevista aqui no Conto de Notícia- Estadão.

CN – Rodrigo, considerando que todas as estimativas eram de que até o final de 2021 esboçava-se alguma reação na economia e, hoje, às vésperas do segundo semestre de 2022 estamos diante de um cenário incerto ainda contabilizando os efeitos da paralisia induzida do comércio e seus impactos na sociedade. Como você analisa a crise gerada pela pandemia no mercado editorial brasileiro?

RL=Por incrível que pareça, as dificuldades enfrentadas pelo mercado editorial antes da pandemia, de 2015 a 2020, foram muito maiores. A pandemia favoreceu a leitura, com as pessoas em casa e tendo mais tempo livre, temporariamente sem os deslocamentos pela cidade que a nossa rotina exige. Agora estamos ainda tateando o que será o “novo normal”, provavelmente algo intermediário entre a crise anterior e a grande surpresa positiva durante a pandemia.

Blog –  E quanto aos colegas editores e toda a cadeia de livrarias e distribuidoras, que tipo de relato tem chegado até você?                        

O que estamos vendo é uma recuperação muito bem-vinda das livrarias físicas, uma instância crucial para a saúde do mercado editorial.

Blog- Como atual publisher da  Editora Record o que os seus contatos e pares  do mercado interno e externo têm observado em relação ao comportamento e tendências do livro num futuro próximo? É possível traçar um panorama considerado as similaridades e diferenças do que houve aqui e nos demais países?

RL-Acho que a mais importante constatação é que ninguém mais fica se perguntando se o livro físico será extinto pelo e-book. Já é um alívio não ouvir essa discussão, a meu ver, fadada a terminar concluindo o óbvio: as duas coisas são complementares. Assim, apesar do crescimento constante das vendas de e-books, não há possibilidade à vista de o livro físico perder seu lugar. Outra tendência, ainda a se confirmar, é o crescimento dos áudiolivros, à medida que todos nos acostumamos a ouvir podcasts e demais conteúdos em áudio.

Blog– Temos hoje poucos veículos de divulgação especializados em literatura, e daqui em diante, feiras literárias e bienais de Livros, estão sendo reativadas depois de sofrer muitos revezes. Não seria importante repaginar a divulgação e recriar a tradição no marketing? Por exemplo, depoimentos de escritores na TV aberta, documentários, e trazer de volta os cadernos especializados nos grandes jornais? Ou te ocorre alguma ideia inovadora para incentivar o surgimento de novos leitores?

RL-Acho que todas as ideias citadas acima são ótimas, e não há dúvida de que seria muito positivo se houvesse mais cadernos e revistas especializados em livros espalhados por todo o país. Mas o que se percebe com frequência é o trabalho de marketing e divulgação das editoras ganhando força nas redes sociais, primeiro com book trailers e, sobretudo, com Instragram e Tik Tok. Nos três casos, o audiovisual vem ganhando muita força como forma de divulgação de livros.

Blog- Pelo que vários editores relataram, mesmo antes deste período atípico, o mercado editorial já estava em processo de transformação, buscando, talvez,  algum outro tipo de narrativa e gênero literário?  Poderia nos falar mais a respeito destas novas demandas? Serão Passageiras? Terão vida longa? 

RL-Eu não sei se eu diria transformação. Talvez expansão, ampliando seu leque de gêneros narrativos. Ou ondulação, com alguns gêneros antes em baixa agora em alta, e vice-versa. Sem dúvida as pautas políticas e identitárias estão muito fortes na literatura hoje, bem como os romances de fantasia, e às vezes uma bem-sucedida mistura das duas coisas. E isso não só no Brasil, no mundo inteiro. Acho que terão vida longa, sim, por que não teriam? Com sete bilhões de pessoas no mundo, há leitores para todo tipo de livro.

Blog- Na  sua opinião O “contexto recreativo” de algumas destes novos  (e velhos) estilos se contrapõem à assim chamada alta literatura? Podem ser complementares? Inter excludentes? Ou trata-se de uma discussão que considera obsoleta? Lembrando que o escritor e também prolífico editor, Lawrence Ferlinghetti, originalmente pertencente à tradição beatnik costumava dizer que dava preferência a um original experimental do que a um velho e conhecido estilo de escrita. Isso dito, há como conciliar o comercial com o experimental?  Outros editores expressaram opiniões análogas. Dito de outro modo, qual é o papel da moda na literatura?

RL-Acho que há vários critérios para se avaliar a “qualidade” de um livro. Ela pode se ligar ao estilo do texto, ou às experimentações na estrutura narrativa, ou ao tema de fundo, ou à força emocional dos personagens, por exemplo. A moda pode impactar em todas essas esferas. Não acho que algo, por ser moda, é necessariamente pior, mas também não é necessariamente melhor. Às vezes certa característica que pôs um livro na moda pode cair em desuso, e aí ou ele fica como um retrato da época, o que também é importante, ou ele continua sendo lido por suas outras qualidades que antes ficaram abafadas pela moda.

Blog – Quais aspectos impactarão — ou já impactaram — o mercado editorial quando colocamos em perspectiva uma inevitável aceleração da revolução digital e seus instrumentos, tais como home office, webinars, leitura digital? Isso significa necessariamente uma modificação nos hábitos de leitura e consumo de livros? Imagina que tais mudanças serão permanentes? Ou teremos doravante um mercado híbrido?

RL-Certamente, como falei, teremos um mercado híbrido. As lives sobre livros, por exemplo, são ótimas. Mas quem não sentiu uma certa saturação de lives durante a pandemia? Tudo tem seu momento, e o importante é aproveitar o melhor que cada mídia pode oferecer. Mas de uma coisa não se escapa: a leitura é um momento de introspecção, de mergulho numa dimensão particular, que depois pode e é compartilhada, mas que não dispensa o retiro intelectual anterior. E isso não é mau, acho que até que é muito importante nos dias de hoje, quando nossa atenção é fragmentada a todo momento, e a experiência mais lenta e silenciosa da leitura oferece um escape da algaravia acelerada do cotidiano.

Blog – Considera uma concorrência “quase desleal”a projeção de luz na avalanche de ofertas do streaming através das smart TVs e telas de alta definição? Requer apenas um controle remoto, e um assento confortável, enquanto a leitura , hábito de baixa adesão entre nós aqui no Brasil, envolve outros mecanismos de percepção e estimulo intelectual, e, seguramente, mobiliza outros recursos sensoriais. Por outro lado o problema talvez esteja mais na criação do hábito de leitura nas casas – pais leitores ensejam filhos leitores – e no ensino do que propriamente campanhas de marketing.

RL-O maior obstáculo ao hábito da leitura não é tanto a oferta de material audiovisual pela TV, ou pelos canais de streaming, muito embora, claro, ela roube tempo que podíamos gastar lendo. Também se pode questionar o quanto a ficção audiovisual “roubou” o público da ficção escrita. Contudo, o maior obstáculo à difusão em larga escala do hábito de leitura é a educação que, no Brasil, já não vai bem há muito tempo e, durante a pandemia, regrediu ainda mais. Temos um problema de fundo que o país ainda não sabe como resolver. Mas, no geral, estamos vendo que a literatura é sempre capaz de mobilizar muita gente, seja nas redes sociais, nos clubes de leitura etc.

Blog – Quais foram suas experiências mais insatisfatórias e as mais gratificantes no trato direto com os escritores?

RL-Foram muitas, já estou nisso há 35 anos, desde os 17! Aqui mesmo, na Record, venho tendo ótimas experiências autor-editor, com grandes escritores como Antônio Torres, Nélida Piñon, Carla Madeira, João Almino, Márcio Souza, Sérgio Abranches etc. E, claro, a experiência preciosa de editar as novas edições de Carlos Drummond de Andrade, juntamente com os titulares da obra, seus netos, e o grande especialista drummondiano Edmílson Caminha.

Blog – Em uma sociedade cada vez mais dividida e dominada por controvérsias ideológicas não te preocupa a transposição deste conflito para a política editorial? Já está acontecendo: presenciamos uma literatura de corte ideológico? E o papel do editor não seria exatamente dar voz às várias tendências, atuando para evitar o hegemonismo, intelectuopolio ou censura?

RL-Acho muito natural, e importante, que a literatura reflita as grandes questões do momento histórico em que é produzida. Nesse sentido, é natural que as controvérsias ideológicas se façam presentes no que estamos escrevendo e publicando hoje. O perigo é esta se tornar a única régua para avaliarmos se um livro é bom ou não, o que é um perigo real, pois no calor do debate político às vezes excessos são cometidos. Albert Camus, no ensaio filosófico “O homem revoltado”, diz que: “O diálogo, a relação entre pessoas, foi substituída pela propaganda ou a polêmica, que são duas formas de monólogo.” Então, vale a pena ficar atento.

Blog – Quais mensagens você deixaria para um escritor iniciante? E para os escritores veteranos?

RL-Para os iniciantes, eu diria que só vale a pena construir uma carreira de escritor, com todos os sacrifícios que ela implica, se realmente você tem a sensação de que sua vida sem isso ficaria sem sentido. Se não, você pode até escrever um ou dois livros, ou viver nas franjas do mundo literário-editorial, mas será difícil dedicar a vida à atividade em si de escrever. Ela é muito exigente, solitária e, em geral, mal remunerada. Para os veteranos não me arrisco a dizer nada, a não ser muito obrigado.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.