007 na batalha entre Batman e Lagerfeld

007 na batalha entre Batman e Lagerfeld

Silvia Feola

12 Novembro 2015 | 11h54

spectre007

Spectre é a organização global que ameaça a paz mundial e contra a qual Bond luta no vigésimo quarto filme da franquia, o quarto com Daniel Craig.

Com o fim da Guerra Fria, a questão do terrorismo desmedido (e sem foco) preenche a lacuna do clássico inimigo, com um toque de contemporaneidade dado pelo perigo em potencial que o sistema de vigilância governamental representa, ameaça revelada por Edward Snowden na vida real.

O paralelo com o escândalo de vigilância da NSA (agência de segurança norte-americana) é a aposta de Bond para conectar-se com a realidade dos dias de hoje.

Mas, mesmo assim, Bond faz questão de manter a sua marca registrada e seu tradicionalismo.

Talvez permaneça na mente dos ingleses como um eterno rebelde, sempre exercendo uma insubordinação necessária, colocando seu duty (uma noção de “dever” bem inglesa) como cidadão à frente das hierarquias, que só atrasam o que trabalho a ser feito.

Ainda assim, o galã, embora tenha ganhado uma notória profundidade enquanto personagem, um pouco no estilo do que aconteceu com o novo Batman, continua contendo uma boa dose de caretismo.

Um sutil machista sedutor de viúvas solitárias, segue tomando seu Martini – batido e não mexido; mantém-se ainda um aficionado por carros, essa máquina maravilhosa tão século passado; e mais, continua correndo loucamente pelas ruas da Cidade do México, de Londres, Roma, do deserto do Marrocos, sem abrir mão do seu belo terno, óculos escuros e luvas pretas, no maior estilo Karl Lagerfeld, com certeza o referencial de homem poderoso na cabeça da figurinista.

Mas como bem apontou Anthony Lane, em artigo na New Yorker, o terno justo e abotoado até o último botão serve para que o espectador compreenda o quanto James Bond sente-se sufocado por essa vida.

De fato, talvez não desse para pensar num James Bond hipster, de tênis e moletom, guiando sua bicicleta por aí, tentando combater o mal no mundo com uma arma.

Só não deixa de ser engraçado levar a sério o anti-herói encantador de mulheres que saiu de um editorial de revista de moda, cuja uma das poucas paixões no mundo é seu Aston Martin.