A crise da existência feminina

Silvia Feola

01 Outubro 2015 | 10h18

Em relatório recente, o McKinsey Global Institute elaborou um cálculo estimado sobre o aumento da riqueza dos países se mais mulheres fossem inclusas na força de trabalho remunerado e se, somado a isso, os salários representassem maior igualdade de gênero.

De modo muito simplificado, podemos dizer que a ideia é que quanto mais os cidadãos produzem, mais dinheiro o país recebe e mais riquezas podem voltar em forma de benefícios à população.

A questão parece continuar a ser a de que, como afirmara Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se”. A desigualdade de gênero ainda permanece pela imposição cultural dos papéis sociais que são tidos como pertencentes “por natureza” ao homem e à mulher, ao pai e à mãe.

Por outro lado, cuidar efetivamente da casa e dos filhos é apenas uma parte do problema. Uma parte porque, mesmo que o homem divida igualmente todas as tarefas domésticas, ou que se tenha recursos financeiros garantir que tais atividades serão realizadas por outra pessoa, uma dualidade contraditória permanece na existência feminina.

As mulheres de hoje vivem divididas entre a vontade de estar com os filhos e o desejo e/ou a necessidade de ter uma vida profissional na qual sejam minimamente realizadas.

O exercício da maternidade deixou de ser algo que possa ser feito plena e integralmente, seja por questões financeiras, seja por aspirações pessoais.

A culpa se instalou tanto nos momentos de prazer com os filhos, porque esses implicam tempo longe do trabalho, como também no tempo em quem se passa trabalhando, porque isso significa perder parte importante do momento em família.

A desigualdade de gênero que vive a mulher de hoje está para além de exercer tarefas menos remuneradas. Ela se esconde nas entrelinhas de nossa existência dupla como mãe e força de trabalho, numa pressão interna que colocamos em nós mesmas.

Ter salários melhores certamente colabora. Mas a igualdade de gênero não virá única e exclusivamente do dinheiro, se a mulher vive num sistema que não foi feito para ela.