A moda celebra o streetwear e a diversidade

Silvia Feola

26 Outubro 2016 | 13h22

É provável que o desfile que tenha criado mais expectativa nessa edição da SPFW seja mesmo o do Laboratório Fantasma, marca dos rappers e irmãos Emicida e Evandro Fióti.

Em parceria com o estilista João Pimenta, a grife marcou história, trazendo a diversidade das ruas para as passarelas pela primeira vez no Brasil.

Como disse João Pimenta, em entrevista ao site FFW, “Negro, branco, homem, mulher, gay, gordo, magro, o importante pra gente é a rua, é quem anda por aí de verdade”.

E de fato, na passarela, a maior parte dos modelos eram negros, e muitos não tinham o corpo padronizado de modelos. Bem genderless, a coleção ainda trouxe Seu Jorge (e outros homens) desfilando de saia.

Além de resumir todas as pautas sociais do momento – inclusão, empoderamento, transformação – o desfile marca a estreia no mercado de moda brasileiro do streetwear feito por quem realmente vem das ruas e dialoga com elas, os rappers.

A origem do streetwear remonta ao fim da década de 1970 com a cultura californiana do surf, um moda jovem que representa um jeito informal de se vestir.

Ainda que de lá para cá o streetwear tenha tido muitas releituras, principalmente por sua associação ao hip hop e ao sportwear, seu auge foi mesmo nos anos de 1990, quando as passarelas adotaram elementos do movimento grunge (e é por isso a moda hoje anda tão 90’s).

Até então.

Hoje o streetwear está tão forte que ganhou até categoria própria no (ex-British) Fashion Awards de 2016, sob o título de “international urban luxury brand”, em inglês (algo como “marca urbana de luxo internacional) .

Entre as marcas concorrentes ao prêmio está, claro, a francesa Vetements, provavelmente a maior representante do streetwear de luxo.

Ainda que soe um pouco destoante falar em “streetwear de luxo”, a ideia é que as ruas estão na passarela, principalmente nos moletons e nas modelagens amplas, duas tendências que já duram algumas estações e que dialogam muito com a inclusão do homem como protagonista do mercado de moda, assim como com o conforto buscado num dia-a-dia em que acumulamos cada vez mais funções.

No fim das contas, incluir o streetwear como uma categoria própria num prêmio de moda representativo como esse, parece sinalizar uma tentativa de aproximação maior do mercado com a “vida real” das pessoas (um pleonasmo válido em tempos de redes sociais).

Além disso, o mesmo prêmio traz uma lista de modelos que parece ser a mais diversa de todas as edições até agora.

Outro fato que parece corroborar a tese de que a moda precisa se conectar mais com o público é o de que a Vogue inglesa traz, em edição especial, somente “mulheres de verdade” (um nome questionável para dizer “não-modelos”) estampando os editoriais de moda da revista de novembro.

Se é suficiente? Muito provavelmente não.

Mas o mundo mudou e agora a gente tem como exigir mais. O mercado da moda parece perceber a necessidade de representar muito mais gente.

Pelo menos na moda brasileira isso acabou de começar. “Da favela para as passarelas”, como afirma Emicida, a “coleção é ‘nóis’”.