A naturalização seletiva do terror

Silvia Feola

18 Novembro 2015 | 09h31

Muito se discutiu essa semana acerca da atenção dispare dada pela mídia ocidental em relação aos atentados em Paris e os que recentemente aconteceram em Beirute e na Turquia, isso sem falar nos que acontecem frequentemente no Iraque e no Afeganistão.

Se isso é um problema, depende. Tudo tem dois lados.

Nosso pensamento cultural opera em termos de “nós” e “eles”, “ocidente” e “oriente”; “mundo livre” e “o outro”, para o qual não temos bem uma denominação.

Paris certamente nos é muito mais familiar em termos culturais, sociais e políticos. Suas ruas e cafés habitam nosso imaginário de um modo que não podemos encontrar paralelo em nenhuma cidade do Oriente Médio; sua história é parte do que entendemos como História, com H maiúsculo.

Do outro lado, naturalizamos os atentados à bomba no Oriente Médio como se fizessem parte de uma cultura local, um hábito bárbaro de um povo bárbaro.

E não podemos afirmar que a mídia é a responsável. Como cidadãos de países “distantes”, física e culturalmente, nos acostumamos a isso e, na maior parte do tempo, não nos indignamos.

A questão é por que naturalizamos o terror que não acontece no nosso quintal? Mais ainda, porque sentimos que estamos à salvo dele?

Para nós, é como se o Oriente Médio fosse um lugar em guerra, travando uma batalha com a qual nós não temos nada a ver, por questões que não nos dizem respeito.

Acontece que não é bem assim.

Embora parte do problema do Oriente Médio tenha origem em questões próprias, outra parte do problema é fruto de decisões de diversos governantes de países ocidentais, desde a queda do Império Otomano até a mais recente invasão do Afeganistão e do Iraque.

Isso não implica que as vítimas dos atentados de Paris tenham responsabilidades ou culpas a carregar. Em primeiro lugar, são meros civis tentando viver suas vidas; em segundo lugar, a política é um esquema de troca de interesses. Nenhuma das invasões e negociações injustas entre Ocidente e Oriente foram feitas sem que as partes interessadas não acordassem em algum tipo de prós e contras. É bastante plausível que toda interferência estrangeira, e mesmo as invasões por terra contem sempre com o apoio da oposição local.

Mas deveríamos nos propor a repensar na naturalização seletiva do terror que nós, cidadãos do mundo, de algum modo ajudamos a perpetrar.

Porque o fato de o terror continuar no Oriente Médio certamente colabora para que ele chegue até nós.

Afinal, o mundo globalizado é justamente isso: a perspectiva de que não há fronteiras, tanto para a interferência colonialista quanto para a guerra.