O amor nos tempos do marketing

O amor nos tempos do marketing

Silvia Feola

12 de junho de 2015 | 13h23

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Dia dos namorados.

Dia de trocar presentes.

Acredita-se que a data remeta ao passado pagão, em que se homenageava com oferendas a deusa romana do matrimônio, Juno, e o deus da natureza, Pan.

No mundo individualista e industrial, a homenagem ganhou ressignificação. Primeiro, com a troca de cartões, e posteriormente com a troca de presentes entre indivíduos que tentam por meio de mercadorias demonstrar suas emoções.

Aprendemos a exprimir nosso afeto através de objetos simbólicos.

O ato de consumo se transformou em algo que vai além do mero possuir.

Consumir se tornou uma parte integrante da nossa existência e da nossa relação com os outros.

Assim, a troca de mercadorias é antes de tudo uma troca emocional, de valores e ideais.

Talvez Duchamp tenha sido o primeiro a enxergar a transformação dos resultados da produção industrial em objetos que eram em si pequenas obras de arte reproduzidas em massa.

O triunfo da mercadoria foi justamente conseguir ser interpretada como objeto dotado de beleza e significado, de tal modo que hoje há uma justificativa emocional e racional para tudo e qualquer produto que compramos.

Escolhemos as coisas que supostamente nos trazem felicidade, que inspiram beleza e que de algum modo nos fazem sentido.

Estamos tão integrados com os objetos ao nosso redor, que nos padrões atuais de consumo as estratégias de marketing das empresas priorizam o sujeito e sua felicidade, e apenas secundariamente o lucro; como se as empresas estivessem mais preocupadas com você do que propriamente preocupadas em vender seus produtos.

Sabem que as pessoas desenvolvem fidelidade, sentimento, à marca. Entenderam que o que buscamos, como consumidores, é personalizar as coisas. A vida contemporânea é encarada como a construção de si ao longo do tempo, e para isso precisamos de produtos que nos componham de acordo com aquilo que queremos ser.

O indivíduo se tornou uma empresa (a revista Você S/A não surgiu à toa).

Todas as atividades que escolhe perpetrar e todos os produtos que escolhe comprar estão diretamente relacionados ao desejo de aprimorar a própria existência; pessoal e no mercado de trabalho, duas esferas cada vez mais indissociáveis.

Por isso que no dia dos namorados vale escolher algo que valorize ambos, quem escolheu e o destinatário, a pessoa amada.

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