As garotas do Estado Islâmico

As garotas do Estado Islâmico

Silvia Feola

02 de junho de 2015 | 13h38

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Por um lado, o Estado Islâmico apedreja até a morte uma mulher síria acusada de adultério.

Por outro, meninas europeias (criadas no Islã ou convertidas a ele) juntam-se às fileiras dos guerreiros como suas mulheres.

O Ocidente tenta entender como é possível que garotas criadas no contexto da cultura ocidental, cuja liberdade individual é o valor historicamente adquirido de maior importância, podem escolher uma vida reclusa, privada de todas as liberdades.

Como mulheres do pós-feminismo podem escolher submeterem-se completamente a um marido como a um dono, terem seu direito de ir e vir tolhido pelos costumes locais?

Muitos acreditam que garotas migram para esse universo enganadas pela áurea mágica e heroica que inspiram os jihadistas nos adolescentes, e quando chegam ao seu destino final deparam-se com uma realidade distantemente diferente daquela que motivou a sua ida.

O abandono do mundo ocidental seria, na verdade, um equívoco ilusório, na medida em que essas mulheres continuariam a buscar os mesmos valores do Ocidente, em meio à luta política-religiosa dos terroristas do autoproclamado Estado Islâmico.

Mas será mesmo verdade que elas vão tão cegamente em direção ao seu aprisionamento?

Será que quem escolhe se unir às fileiras da jihad não vê na luta qualquer tipo de legitimidade, seja política ou religiosa, ou ambas?

Será que estão completamente iludidas em relação à condição de uma mulher no meio de radicais que pregam uma versão radical da sharia?

Isso não implica, é claro, que escolhem agir como mártires num casamento em que são cruelmente desrespeitadas por seus maridos.

Muito provavelmente acreditam que serão bem tratadas por eles, tal como na maior parte dos povos islâmicos.

Mas tirar dessas meninas o mínimo de consciência sobre suas ações implica em afirmar que elas não têm um raciocínio autônomo, que são facilmente enganadas por qualquer coisa que pareça levemente heroica.

No limite, isso é sutilmente acreditar que elas não são tão emancipadas assim como mulheres; que a mulher ainda é um ser que se deixa levar pela mais frívola possibilidade de viver uma paixão, como num conto de fadas em que no fim a princesa se casa com um príncipe guerreiro.

Mas espera: não é justamente isso que pregam os filmes da Disney?

Muitos teóricos tentam compreender o que tem levado jovens europeus a se unir a uma luta radical que prega contra os valores de seus próprios países. De fato, para nós é impossível acreditar que alguém se deixe atrair por um grupo cuja principal propaganda é o terror.

Contudo, é justamente nisso que deve focar a nossa busca: o que há na cultura do Ocidente (ou do mundo) que permite a esse grupo radical exercer tamanha fascinação?

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