Bela, recatada e do lar coloca normas no vestir

Silvia Feola

21 Abril 2016 | 15h14

O artigo de uma grande revista semanal na qual Marcela Temer, casada com Michel Temer, é caracterizada como “bela, recatada e do lar” deu o que falar nas redes sociais e fora delas.

Os adjetivos “bela, recata e do lar” foram usados num viés que dá margem à interpretação de que Marcela , justamente por causa desses atributos, mostra um padrão de conduta a ser seguido.

Como bem disse Ruth Manus, o problema não está em querer ser “bela, recatada e do lar”, mas quando se faz disso as boas qualidades que devem pertencer a uma mulher, quando o que deve ser enaltecido é a liberdade de escolher ser o que quiser.

A autora também faz ótimos comentários acerca de cada uma dessas características atribuídas à Marcela. Entre eles, o de que, nesse caso, “do lar” não se refere ao cuidado da casa – função necessária que pode ser ocupada por ambos os sexos – mas ao cuidado de não se expor, de estar reclusa ao lugar que “devidamente pertence à mulher”, isto é, fora do espaço público.

Há quem diga que o artigo tece tais “elogios” em forma de ironia.

Bem, irônico ou não, o fato é que tais propriedades nunca são usadas para caracterizar o gênero masculino. Principalmente as duas últimas.

Imagina ouvir que um homem é recatado porque só usa bermudas na altura dos joelhos e em cores sóbrias, nos mesmos moldes em que a revista chegou a comentar sobre os vestidos de Marcela. Imagina ouvir que ele é recatado porque nunca deixa partes do peito à mostra, porque não usa roupas justas demais, curtas demais, ou coloridas demais.

Os homens nunca tiveram que se preocupar em serem recatados, por isso, para muitos deles pouco importa a diferença entre uma bermuda e um shorts no seu dia a dia.

A moda e o movimento feminista transformaram o guarda-roupa da mulher de modo enriquecedor. É incrível o leque de possibilidades que temos ao nos vestir e a tamanha criatividade que podemos colocar nisso.

Mas, por outro lado, pensar nessas diferenças de tratamento no vestuário de ambos os sexos também levanta a questão sobre o quanto nós mulheres – enquanto gênero – não temos enraizadas o tema do “recatadas”.

Talvez – e apenas talvez – esse seja um dos motivos pelos quais somos ensinadas a fazer a distinção dos conceitos e a correta diferenciação entre os ambientes em que cabe o uso de coisas como transparência, brilho, saia reta ou mídi, vestido curto ou longo, e etc.

É como se a mulher estivesse sendo sempre vista pela perspectiva de que busca um lugar neutro no mundo através do vestuário. Algo que no universo masculino é praticamente certo e seguro, pois as formas das roupas não dão margem a esses mesmos erros sociais no vestir.

Isso parece tornar a questão do “recatada” ainda mais excludente: a mulher “teria de buscar” por essa característica que não seria um direito seu, adquirido desde sempre. Ela deveria fazer as escolhas “certas” em função de atingir “tão alto patamar” de comportamento.

Quem coloca “recatada” como um atributo positivo a uma mulher, faz dela uma vencedora, que conseguiu chegar a um alto patamar na hierarquia social. Ainda bem que muitos de nós acreditam hoje que qualquer coisa que tente dividir a sociedade entre vencedores e perdedores é altamente questionável.