Comida de Mentira

Silvia Feola

01 Setembro 2015 | 12h22

Pizza de couve-flor, macarrão de mandioca, sorvete com base de banana, de abacate, brigadeiro de whey, brigadeiro de frutas secas, brigadeiro de alface?

Possivelmente, nunca antes na história da alimentação o homem tenha inventado tantos substitutos para camuflar a sua vontade de comer certos alimentos que, durante séculos, fizeram parte de seu cardápio.

As pesquisas sobre saúde mudam constantemente o vilão e o mocinho da boa nutrição, fazendo com que a maior parte de nós esqueça que comer é muito mais do que nutrir-se.

A comida faz parte da vida do ser humano como um ritual de troca e socialização. Não à toa, Aristóteles chamava aos que partilhavam da vida numa aldeia de comensais, isto é, aqueles que comem juntos.

Diante da imensa quantidade de informação acerca do que é bom ou ruim, certo ou errado em termos nutricionais, a obesidade deixou de ser o único problema contemporâneo relacionado à alimentação.

Nossa interpretação do alimento como sendo única e exclusivamente os nutrientes que contém (e diga-se de passagem, os nutrientes que a ciência foi capaz de descobrir) fez com que a alimentação, algo plenamente natural a todos os animais, se transformasse para nós, seres humanos, em uma constante dúvida quanto ao que consumir. A esse fenômeno, o sociólogo australiano Gyorgy Scrinis deu o nome de “nutricionismo”, ou terrorismo nutricional.

Diante disso, muitos psicólogos sugerem que a “ortorexia nervosa” – a obsessão pela alimentação correta – seja adicionada à lista de transtornos alimentares, um sintoma de que vivemos numa sociedade doente.

Para além da famosa blogueira fitness que leva marmitas para festas de casamento, muitos outros blogs e contas do Instagram pregam uma vida mais saudável através do consumo de smoothie de beterraba no café-da-manhã, ou mousse de chocolate feita de couve-flor.

Embora todas estas atitudes tenham ganhado ares de saudáveis, novas descobertas sugerem que não é possível considerar o benefício e o malefício de uma determinada comida unicamente nos termos que cunhamos até aqui; há uma série de problemas em considerar os ditos ‘nutrientes’ como fatores isolados, e não como o conjunto que de fato forma aquilo que ingerimos.

É fato que o homem é o único animal capaz de reformular os conceitos com base nos quais leva a sua existência e, em muitos casos, isso nos proporciona uma sociedade mais saudável, justa e igualitária. No entanto, contra todos os prognósticos, esse não parece ser o caso.

Como aponta Michael Pollan em seu livro Em defesa da Comida, ou a nutricionista Sophie Deram no seu O Peso das Dietas, estudos recentes têm demonstrado que o nosso entendimento científicos dos alimentos conseguiu apenas que a nossa sociedade ficasse cada dia mais gorda e menos saudável. Parte da explicação para o problema, dizem, está na constatação de que o prazer de comer é responsável por nos fazer comer menos e melhor. Logo, a falácia está em se alimentar de um modo apenas aparentemente bom.

É verdade que as descobertas acerca dos efeitos nocivos do açúcar parecem terem vindo para ficar. Mas a geração que hoje vive até os 90 anos não precisou excluir o doce permanentemente de sua rotina alimentar para chegar até aqui. O problema não é comer a sobremesa, mas todo o açúcar escondido nos produtos industrializados que lotam as fileiras dos supermercados.

Assim, ao invés de combatermos o problema pela raiz, e nos revoltarmos contra as grandes empresas de falsas comidas (e isso inclui a nova e rica indústria de alimentos sem glúten, mas cheios de aditivos), elegemos o açúcar, presente em nossa alimentação há pelo menos meio século, como o vilão sem mais, e ficamos presos a uma pequena parte da questão.